20 de ago de 2010

Diário de Viagem - Londres, o fim do curso

Hoje foi o último dia de aulas no curso. Como amanhã cedo estou de partida para Dublin, resolvi escrever este post antes de dormir, enquanto as idéias ainda estão mais ou menos frescas.

Da segunda-feira para cá não aconteceu muita coisa. Fui ao concerto, como escrevi no post anterior, e depois fiquei estudando. Para não dizer que não fiz mais nada, na quarta-feira fui ao cinema assistir Toy Story 3. Mais uma vez a animação me surpreendeu. Os roteiristas dão deixaram a peteca cair. Toy Story precisaria ser estudado como um caso raro de sucesso cinematográfico de um filme e suas continuações, sendo que estas nunca ficam abaixo das anteriores. A história da passagem da infância para a vida adulta vista através dos brinquedos poderia ser banal, mas vem carregada de emoção e sensibilidade. A empatia é imediata (a menos que você já tenha matado sua criança interior). A história tem doses certas de humor, aventura e delicadeza. Vale a pena e, pelas reações do público (todos adultos) estou certo de poder afirmar isso.

Como cheguei cedo, pude tirar uma foto de Picadilly Circus de dia, mas antes passei por Covent Garden, para comer um cookie do Benny (e ter a certeza de que o meu é mais gostoso) e fotografar a loja da Apple.

A megastore vista de uma de suas entradas

A fachada principal

A loja, de fato, é gigantesca. E bem movimentada. Um iPod tradicional (aquele em que cabem 40 mil músicas) está custando 143 libras, o que dá uns 420 reais. No Brasil, no Mercado Livre, sai por R$640, ou mais ou menos 211 libras. Não é uma diferença muito grande. Prefiro só dar uma olhada rápida e sair.

 Fim de tarde em Covent Garden

E em Picadilly Circus

Museu do Acredite se Quiser
35 libras para entrar e ver bizarrices...
Prefiro gastar com outras coisas

Bem, o curso acabou e teve uma festa de despedida. Vinhos, salgados, frutas e, para mim, uma sensação de que tudo passou muito rápido - enquanto o curso rolava parecia um outro tempo, mais lento. Na verdade, ao mesmo tempo em que parece que estamos aqui há uma eternidade, também parece que foi ontem que chegamos para a primeira aula.

No balanço geral, não me arrependo nem por um segundo de ter feito o curso. Foi esclarecedor e desafiador ao mesmo tempo. Vi coisas que nenhum curso de inglês no Brasil ensina; vi sugestões de como incorporar a fonética ao aprendizado de uma segunda língua - coisa que sempre considerei fundamental mas que nossos cursos ignoram solenemente. Aprendi o quanto a entonação de uma frase em inglês pode carregar de significado, a ponto de existirem estudos específicos de entonação, inclusive com mecanismos de análise muito bem discriminados e descritores plenamente estabelecidos para representá-a.

E tem os amigos que foram feitos. Se foram apenas pelo período do curso, só o tempo dirá. Espero que não. Aqui estão algumas pessoas da minha classe (nas aulas práticas), com as quais tive mais proximidade:

Helen, de Hong Kong, e Marta, da Espanha

Shigeri, do Japão (mas residente em Londres), e 
Anabel, da Espanha, também.

Todos juntos.

Lesley, nossa tutora de entonação - uma inglesa
simpática, doce e com uma paciência extrema.
Foram ótimas as aulas dela, porque sempre podíamos
discutir aspectos culturais subliminares às intonações.

Tim Wharton - um dos tutores de "ear-training"
Descolado, alegre, super bem humorado e com
especial gosto por música brasileira.

Não fotografei as grandes estrelas: John C. Wells, autor do melhor dicionário de pronúncia que existe (tenho a última edição comprada dois anos atrás) - mas que provou ser uma pessoa antipática, fria e distante - um "Professor", no pior sentido da palavra. Mais um ídolo que se desfaz... Mas ele autografou o livro que comprei de sua autoria, sobre entonação. O cara é o grande mestre, sem dúvida. Michael Ashby, diretor do curso de verão em fonética, que irá se aposentar no ano que vem - espero que ele continue no curso, pois ele é quase a alma dessa organização. Jane Setter, professora da Universidade de Reading (lê-se /ˈredɪŋ/), que é também autora de outro ótimo dicionário de pronúncia - defensora da introdução da fonética no ensino de inglês como segunda língua, e com quem pretendo trocar algumas figurinhas nos próximos anos. E mais alguns outros.

Fotografei aqueles com quem mais me identifiquei afetivamente. Lesley foi uma tutora maravilhosa, que soubre trocar idéias, mostrar o conteúdo das palestras e quem, de certa forma, segurava a nossa barra quanto às inseguranças e incertezas. Ela vai me mandar uma lista de livros de teoria literária mais recente - quando mostrei a bibliografia que estamos usando na USP ela ficou bem espantada, já que são coisas de 40 anos atrás...

E Tim, o cara mais divertido e ao mesmo tempo mais empenhado em nos fazer compreender entonação e seus possíveis significados, além de ser um crítico inteligente das descrições teóricas propostas pelos principais autores do sistema de análise. Deu-me grandes idéias sobre linhas de pesquisa que eu poderia seguir, podendo inclusive vir a conseguir fazer uma pós aqui mesmo na UCL (se conseguir bancar, é claro). No fim de um bate-papo na semana passada ele me propôs fazermos um número juntos, no dia da festa. Apesar de não termos tido tempo de ensaiar, a coisas saiu e foi um sucesso. Fizemos "Eu só quero um xodó", do Gil - música que ele adora e que eu, por sorte, conhecia a letra. Foi divertido. Acho que uma das colegas filmou - vamos ver se ela me envia o vídeo. Claro que eu estava super-nervoso por não ter ensaiado e comecei no tom errado. Mas depois a coisa se encaixou e deu tudo certo.

Dos colegas, Marta, a espanhola que, se não me engano, é de Zaragoza, vai ficar no coração. Uma tarde paramos num pub perto da faculdade, um lugar estranhíssimo, parecia cenário de filme de terror, com uma dona que parecia, de fato, um fantasma; ficamos conversando por horas. Foi uma ótima conversa.

Helen, que escolheu esse nome porque seria muito difícil pronunciar seu nome cantonês (em Hong Kong a maioria ainda fala cantonês, enquanto na China continental fala-se mandarim). Tem uma pronúncia difícil de se entender, mas um coração iluminado. Sorridente, afetuosa, inteligente à bessa. Ficou "brava" comigo porque eu brincava com as aulas de entonação. O duro é que quando eu não estava brincando, ela também achava que eu estava e ficava me olhando feio. Mas a questão é que a gente tem que ficar imitando os tons. E é muito divertido imitar um inglês falando. Demos boas risadas no fim das contas.

Shigeri parece uma menina, apesar de seus 45 anos (que parecem 27!!!). Já foi casada com um inglês, já viveu com ele na Nova Zelândia por cinco anos, se separou, voltou para Londres e hoje dá aula de inglês para japoneses, por conta própria. Tem um bonito sotaque quase-londrino, é divertida e tem os olhos extremamente abertos para o mundo.

No fim, vejo reforçada a minha idéia de que estamos todos, de alguma forma, conectados. Não estamos isolados no mundo. Existem pessoas que pensam como a gente, mas só que em outra língua. Gente para quem valores como respeito, honestidade, e amizade, por exemplo, ainda estão acima das mesquinharias diárias. Não importa a língua ou a cultura, partilhamos do status de seres humanos, para o bem e para o mal. E podemos nos relacionar com isso. Não somos vozes solitárias na escuridão, somos criaturas que anseiam por uma possibilidade de mundo mais co-habitável, com mais respeito. Sinto-me bem com isso. A humanidade é diversa, mas ao mesmo tempo é uma só - o que precisamos é aprender a conviver com as diferenças.

Amanhã cedo: Dublin. Vamos ver o que a Irlanda nos reserva. Hoje deixei minha mala maior na casa de Juliana, que estagiou na Osesp e veio para cá fazer um curso de inglês. Mora com o primo em Brixton, no sul de Londres. É o bairro dos caribenhos - negras e negros lindos e sorridentes. A saída da estação de metrô lembra o Largo da Batata, só que mais limpo e organizado. Mas é movimentado e barulhento. Até um desses "pregadores do evangelho" que põem suas caixas de som na rua para falar tinha... Juju demorou um pouco, eu fui comer um sanduíche (a coisa mais perto que tinha era um Subway - acabei comendo lá mesmo). Depois, fiquei sentado no banco no calçadão enquanto esperava. Uma mulher negra, elegante, linda, sentou-se e começou a comer um lanche que, via-se, ela trouxe de casa. Um vento frio passou por mim cortando e eu comentei em voz alta "esse é o verão britânico" e ela me respondeu "a gente não reclama, porque está muito bom; já esteve pior em anos anteriores". Ela foi simpática e, depois de uns minutos de conversa, despediu-se ao terminar seu lanche.

Juju chegou, fomos até a casa de seu primo, que é pequena, mas aconchegante, guardei a mala (que está horrivelmente pesada - e eu ainda nem comprei todos os meus livros) e depois saímos, pois ela ira para o trabalho, Foi bom vê-la de novo. Ela está feliz. Volta para o Brasil no dia 1/9. E está bonita, mais com rosto e jeito de mulher, não mais de meninha. Os seis meses aqui fizeram bem para ela...

Linda...

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