17 de ago de 2010

Diário de Viagem - Londres, e um Pássaro de Fogo inesquecível

Ontem foi um dia bom. Bom, mesmo. Não que eu tenha feito muita coisa. Mas no curso as coisas começaram a fazer um pouco mais de sentido. A quantidade impressionante de informação começou a se assentar no fim de semana. E, de repente, não tive mais aquela sensação de que não sabia mais inglês. Conversando com Marta, uma colega da Espanha que também está no curso - pessoa sensacional, com quem me entendi desde o primeiro minuto - falamos um pouco sobre nossa experiência com a língua, tanto como alunos quanto como professores. E aí ela me falou sobre um artigo que leu a respeito da curva de aprendizado de idiomas e elucidou sobre o efeito "plataforma". É mais ou menos assim: a gente começa a aprender um idioma e até atingir um certo nível há uma curva ascendente. Aí parece que ficamos estacionados e nada mais anda no aquisição da língua. Tempos depois a gente começa a evoluir de novo e percebe que avançou. E depois parece estagnar de novo. Esses períodos de aparente estagnação do aprendizado é chamado de "efeito plataforma" porque parece uma linha reta horizontal na curva de aprendizado. Mas passa. É só uma fase. Pode ser mais longa ou mais curta, dependendo da pessoa ou até dos diferentes momentos em que uma mesma pessoa passa por isso. No meu caso, acho que foi um pouco isso. Eu estava "parado" numa dessas plataformas. Nada acontecia até que eu vim fazer o curso. Diante da quantidade de informação inicial me senti um pouco desnorteado. Agora, com as coisas entrando nos eixos... bem já deu para entender.

Londres e seu humores... ontem fez um dia lindo, com muito sol, uma luz diferente. Dessas coisas de pintura. Depois do curso peguei o ônibus para ir até Victoria Station comprar o bilhete de trem para o aeroporto de Gatwick. Poderia ter ido de metrô, mas perderia metade da graça, já que os ônibus também são uma boa maneira de ver a cidade (e sem cansar as pernas). Um pouquinho de trânsito na Oxford Street com a Tottenham Court Road, que está em obras, mas nada desesperador.

A torre da British Telecom. Fica aqui perto do alojamento.

Uma vista mais bonita do prédio onde
tenho as aulas.

A Victoria Station, ontem à tarde

E o Apollo Victoria, teatro em frente
à estação.

Comprei os bilhetes do Gatwick Express, que é um serviço de trem rápido que liga o centro de Londres ao outro de seus principais aeroportos (Londres tem quatro: Heathrow, Gatwick, Luton e Stansted), em 30 minutos. E tem um trem a cada 15 minutos desde as 3:30 da manhã. É ou não é para se ter inveja de uma cidade como esta.

Quando JK resolveu voltar os olhos para o paraíso dos automóveis americanos de Detroit e dar às costas ao poder das ferrovias inglesas nós perdemos a grande oportunidade de criar uma malha ferroviária que poderia ter ligado o Brasil de norte a sul e de leste a oeste, oferecendo não só a possibilidade de transporte de qualidade e eficiente, como também a de melhor escoamento da produção agrícola do interior para as capitais e, anos mais tarde, quando tivéssemos, como agora, capacidade de exportação de produtos industrializados, a condição de termos o desenvolvimento mais rápido do interior. Mas isso é conversa para outro post.

Depois de ter comprado os bilhetes, voltei para o alojamento para me preparar para o grande acontecimento da noite: o concerto do Proms no Royal Albert Hall. Em post anterior coloquei as fotos do prédio. Grandioso, bonito, vigiado pela estátua daquele que lhe empresta o nome. E o programa eu escolhi a dedo: Scriabin - Sinfonia No. 1 em Mi maior e Stravinsky - O Pássaro de Fogo. Apresentação da Orquestra Sinfônica de Londres com seu regente principal: Valery Gergiev - o homem que transformou a orquestra do Teatro Mariinsky, na Rússia, em uma referência internacional.

O RAH possui várias portas de entrada. Cada uma dá diretamente em uma ante-sala, onde normalmente tem um bar de vinhos. Depois tem um grande corredor que circunda o prédio. Há escadas para o restaurante no subsolo e também para os níveis mais altos. A Moet et Chandon deve ter feito algum acordo com a sala, porque só tem eles de champagne espalhado pelos muitos bares - como a sala é grande e circular, isso evita que as pessoas tenham que se deslocar muito para os "refrehsments" pré e pós concertos. Cada portão deixa você de frente para a entrada certa de seu setor. E os indicadores, simpáticos e atenciosos (além de bonitos - mulheres e homens) asseguram que você encontrará facilmente seu lugar. Só os banheiros é que me parecem poucos para tão longos corredores... senti-me percorrendo quilômetros para ir do portão três ao portão oito, onde fica um dos banheiros masculinos (e, aparentemente, o mais próximo da minha entrada). Tudo muito limpo, tudo muito antigo e, numa cidade que enfrenta dias de frio em pleno verão, as sempre bem vindas torneiras com água quente.

Bem, aliviada a bexiga, desço ao restaurante, que é sóbrio, tem poucas mesas, e onde se encontra o público mais velho e com dinheiro - sim, eles estão tomando champagne enquanto saboreiam seus pratos. Peço um café e, para meu desespero, eles só têm filtrado, o que equivale a um copo a la Starbucks de café coado e guardado em... garrafas térmicas! Dá para imaginar o meu espanto, né? Peço à atendente, bastante sorridente, que coloque um pouco menos da metade de café naquele copo de papel, envolto em um guardanapo com o logo do RAH primorosamente enrolado e fixado em seu corpo (o copo, não a atendente). Pago o preço do copo cheio, uma libra e qualquer coisa, e peço um pedaço do bolo do dia que, para minha sorte, é de limão com blueberries. Em tempo: blueberry é uma frutinha bem sem graça. Por sorte, tinha pouco dela no bolo. Enquanto termino meu café as portas de acesso à sala são abertas, pontualmente às 18:45 (o concerto é às 19:30).

Hora de entrar na famosa sala... de cara, o impacto: o lugar é enorme, é alto, muito alto. Acho que o "poleiro" deve ser mais alto até do que o do Municipal do Rio de Janeiro. Tudo vermelho. Antigo. Feio. Beeeem feio. Quero dizer... é uma coisa espantosa, mas que não combina com o exterior. Para começar, como o RAH não é a Sala São Paulo, não tem as placas acústicas no teto. A cúpula é visível e o que existe como anteparo são uns confetes gigantecos pendurados nela. Aliás, toda a estrutura é visível. Sobre o palco há uma estrutura enorme, retangular, preta, como abafadores de som, luzes e toda a parafernália técnica. Sobre ela vê-se a armação do telão, que deve ser usado em outros eventos. Essa coisa bem feia tira toda a visão de um órgão enorme que parece ser muito bonito - um desperdício (que me provaria enganado depois). A frente do órgão forma uma pequena cunha, que fende o círculo e, à sua volta, senta-se o coro. A distribuição oferece soluções diversas para o posicionamento do coro - o que pode ter resultados interessantes.

As cadeiras são sustentam-se sobre tubos de metal. O assento gira, como um banco de bar. Isso permite a quem está mais próximo do palco virar e ficar confortavelmente de frente para os músicos, sem atrapalhar os vizinhos. Cada assento está isolado do outro, o que torna a vida mais fácil. Ah, e eles não rangem, nem estalam...

Mas a grande supresa, mesmo, está no meio da grande sala. Sim, porque o palco é numa "lateral" do círculo (criando aqui uma impossibilidade geométrica, mas perfeitamente plausível). O meio é... um grande picadeiro! E no meio do picadeiro tem um singelo jardim com..., eeeehh...., beeeemm, hummmm, ainda mais singelo CHAFARIZ. Isso mesmo! Pequeno, porém é um chafariz. Com água jorrando, de verdade. Uma coisa abominável! Tão abominável que chega a ser pitoresco. Pois bem, nesse picadeiro com chafariz no meio ficam as pessoas que compraram ingresso na última hora para assistir ao concerto DE PÉ! Tem gente de todo jeito: muitos jovens, alguns bichos-grilo, gente tatuada, pessoas mais velhas, até alguns senhores e senhoras. Sentam-se no chão enquanto o concerto não começa, conversando animadamente entre si, como se fossem velhos conhecidos - e alguns pareciam ser mesmo. É aí que se descobre porque que a série se chama Proms: vem de "promenade", verbo que significa passear. As pessoas passeiam em algumas áreas da sala enquanto o concerto acontece (não dentro da sala, claro). A galeria (o poleiro) também é um lugar onde as pessoas ficam de pé e por lá elas "flanam". O ato de ficar de pé na arena (o picadeiro) ou na galeria (o poleiro) é chamado de promming e quem o pratica é um "promenader" ou "prommer" (mais informal). Alguns são, literalmente, prommers de careirinha - possuem até crachá quando cumprem o "grand slam" (assistir TODOS os concertos da temporada, dentro e fora do RAH - há eventos em outros lugares ligados à série). O "little slam" é assistir todos os concertos que acontecem somente no RAH. Pouco antes de começar o concerto os prommers ficam de pé para que todos possam se acomodar. E eles ficam assim durante todo o concerto!

Tudo muito pitoresco...

A orquestra entra, o violino principal (e não o spalla) afina a orquestra, chega o spalla e depois os solistas e o maestro. A obra de Scriabin prevê coro e solo de mezzo-soprano e tenor. Estes dois são russos e, fica claro, Gergiev está em seu terreno. É a estréia da obra no Proms. A casa está lotada. Ainda não acredito que consegui um ingresso a pouco mais de dez metros do palco, à esquerda do maestro, na platéia elevada, por 24 libras - uma pechincha! A música começa e as qualidades da orquestra e da sala se mostram. Pianíssimos de 5 p's são claramente audíveis. O que dá margem para fortíssimos estupendos, mas que nunca soam "gritados". É, dou o braço a torcer: de onde estou, o som é magnífico. E a orquestra também. Gergiev rege sem batuta e com gestos pequenos, muitas vezes "tremendo" as mãos. Parece que os músicos estão ligaos a seus dedos e respondem a esses pequenos gestos com grande precisão e entendimento mútuo. A peça, apesar de bonita, é longa: 50 minutos. No último movimento, solistas e coro. A mezzo não consegue fazer com que sua voz vença a amplitude da sala, mas o tenor a enche plenamente. Ambos têm vozes bonitas, mas fica claro que a vantagem é dele. O coro é fenomenal, mas a apresentação termina sem grande entusiasmo por parte do público.

Intervalo, vinte minutos, a coisa de sempre: banheiro, café champagne ou sorvete Haegen Daas. As pessoas voltam e aí começa a mágica. São quase 50 minutos de puro encantamento. Precisão, leveza, agitação e calmaria, fúria e ternura - está tudo ali. Nada sobra ou falta. Sinto arrepios de emoção em vários momentos. Às vezes dá vontade de chorar, de tanta beleza. E, no final, o pássaro de fogo de Gergiev nos arrebata. É emocionante, enlevante, impressionante e quantos -antes alguém conseguir pensar. Saí do concerto em estado de graça... um programa longo, bem longo, mas cuja segunda parte passou como um relâmpago iluminando a alma. Lamento que tenha sido a única apresentação. De bom grado assistiria de novo, para fixar  nas tessituras da memória esse brocado filigranado que foi a interpretação de Gergiev para o Pássaro de Fogo. Fiquei feliz por estar vivo e aqui e poder vivenciar isso. Inesquecível, para dizer o mínimo.

Na saída, indo para o metrô, vejo uma moça em um longo preto. Tomo coragem e pergunto se ela canta no coro. Ela sorri e diz que sim. Agradeço a bela interpretação do coro na sinfonia e ela fica visilmente feliz. Encadeamos uma conversa sobre música, sobre Gergiev, sobre o quanto ele me pareceu envelhecido para seus 57 anos e ela me fala do quanto ele ensina sobre música sem muito dizer. O homem é uma força da natureza, sim, mas com a capacidade de transmitir a beleza daquilo que acredita em sua execução da música. Ela está claramente encantada com o trabalho dele. Nos despedimos na estação de South Kensington e eu volto para o alojamento feliz.

Acordo hoje com um dia frio e chuvoso - definitivamente São Pedro tem algo contra essa cidade (seria ciúmes da catedral de São Paulo?). Vou para a aula, tudo parece se encaixar. Na hora do almoço, enquanto sigo para a Pret-a-Manger para comer um delicioso sanduíche de cheddar maturado com presunto e folhas de manjericão gigante com rodelas de tomate, dou de cara com a belezinha aí de baixo. Não que eu seja ligado em carros, mas achei tão inusitado que não resisti à foto. Com ela me despeço por hoje.

De frente

Sim, é uma Lótus... conversível. Cujo teto
se muito, chega até a altura da minha coxa...

Um comentário:

  1. Brocado filigranado??? Cara...coles!!! :P

    Estive no teatro e no concerto junto contigo Flávio!!! Obrigada! ;)

    Ahhh e obrigada pelo presentinho! Adoro vermelho! Qdo ele chega aqui em Sampa?? huahuahuahuahauhauhua

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