16 de mai de 2009

Ela viu e disse que gostou

Minha amiga Sandrinha (Sandrix), viu seu poema postado aqui. Ela disse que gostou do texto que eu escrevi. Era para ela rir, mas ela chorou (acho que de alegria). Um doce. E deixou o texto. Ainda bem!

12 de mai de 2009

Um pouco a cada dia

Não é nada fácil. Dizem que é como praticar exercícios ou tocar um instrumento: só se melhora com a persistência, com o trabalho diário, árduo, às vezes sem imaginação e com resultados pífios, mas não se deve desistir. Em algum momento o esforço deverá se mostrar útil e algo proveitoso deve acabar surgindo de tanto "suor e lágrimas".

Bem, aqui estou eu, no meu exercício: escrever. Ainda que sejam poucas linhas e que seu conteúdo nem seja algo relevante. Mas é preciso. É preciso principalmente agora que, um pouco no susto, descubro que aquelas mazelas da vida moderna começaram a se aproximar: o tal do estresse, a tensão diária e... o colesterol alto, a hipertensão, a indisposição e o cansaço. Não achei que chegariam tão cedo (não achei nem que chegariam! doce ilusão...). Dieta, exames, 'check-ups'. Meu projeto de viver cem anos começa a ser seriamente ameaçado... Não bastava o rim matemático nem as manchas de pele - não isso tava fácil. Tinha que mexer com as vontades mais traiçoeiras: as da comida, as da preguiça. Porque de uma tacada só tenho que fechar a boca e mexer o corpo! Que maçada!

E eu pensando que seguiria os passos de Dª Maria do Sacramento Brandão Ramos, minha doce vó, que viveu 103 anos. 103!!! Bah, que nada. Agora é "você precisa fazer exercícios"; "mas Dr, não tenho tempo! a que horas vou fazer isso? de meia-noite às seis? um homem de bem precisa dormir!". "Encaixa", diz ele sem tirar os olhos dos pedidos de exame que freneticamente escreve, um após o outro. Encaixa como, criatura? Acordar mais cedo? Ai, meu Deus! Macunaimicamente: "Ai que preguiça!". Mas acho que não vai ter muita saída: levantar mais cedo para pelo menos 30 minutos de caminhada pela Sumaré, fazer o quê. Pelo menos é de graça. Sim, porque as academias por aqui andam com os preços que provocam uma suadeira no bolso que só.

Acho que dá para viver sem um salzinho. Mas sem a manteiga e o queijo, ai, aí fica mais difícil. "Diminui", diz meu carrasco/salvador vestido de jaleco branco (franzo a testa, cerro os olhos e miro bem para ver se não tem nenhum sinalzinho de sarcasmo na fuça desse destemido - não tem, para sorte dele). Dá para por adoçante no café, mas dá para viver sem batata? Frita (sumo pecado), cozida, purê, sauté, com carne assada, na salada, "baked" com pasta de frango e requeijão, com maionese (light, claro!). Martírio. Mas, em nome do coração, faz-se o sacrifício. Até o sorvete agora é "dáiete". De iogurte. Ah, não, a calda de frutas vermelhas não conta, né. Covardia, tirar: fica tão bonitinha em cima da bola de sorvete. E é só de vez em quando ("tipo assim" toda semana).

Sim, em nome do coração, vale o sacrifício. Afinal, ainda quero ir a Londres por 15 dias (pelo menos), conhecer as Shetland, visitar minha afilhada de casamento em Reggio Emilia, dar um pulinho em Veneza antes que (ela) afunde de vez, conhecer o novo apartamento de meu amigo francês em Rennes, perambular pelas ruas de Paris, conhecer a vinícola perto de onde meu amigo brasileiro mora em Mâcon, e ainda fazer umas paradas estratégicas nos amigos em Munique e Colônia, e em Madri - ah, já estava esquecendo de Gaudí, em Barcelona! Tem que ter saúde para isso (o dinheiro também, mas essa é outra história).

Se não der para fazer isso tudo (que não precisa ser de uma vez - a não ser, é claro, que eu ganhe na mega-sena, hehe), quero pelo menos passar meus quinze dias em Londres e andar bastante a pé, visitar as várias livrarias que assinalei no meu guia "Booklover's London" e, se der, ainda dar outra canja cantando bossa-nova em um pub nas Docklands (sim, isso já aconteceu uma vez, mas também é uma outra história).

Se mesmo isso não der, quero me formar, quero aprender a escrever, quero continuar cantando até secar a garganta, quero continuar fazendo trabalho voluntário, quero cuidar de um jardim, quero reunir os amigos para uma (ou várias) taça(s) de vinho e um bom papo. Quero voltar a dar aulas. Quero dividir com os outros a alegria de aprender uma língua estrangeira e, com ela, abrir janelas para paisagens que poucas vezes teríamos chance de ver.

Por isso, diminuir o sal, o açúcar, a carne, e até a noite de sono vale. Como escrever, viver é assim: um pouco a cada dia.

Sandrinha, Sandrix

Sandrinha, Sandrix
Quando nos reencontramos pela primeira vez, muitos anos atrás, ela ouviu minha voz e eu a sua.
Nos reconhecemos. Estava claro: amigos desde sempre, como poucos outros o são. Naquele tempo ela não escrevia, mas lia, bastante. Cantava muito, tocava violão e ouvíamos, horas sem fim, os discos de que tanto gostávamos. Ela os tinha, eu os usufruia. E assim passávamos as horas, conversando sobre tudo e ouvindo música. MPB, só MPB (éramos radicais). Só Elis, Tom, Gal, Bethania, Chico, Caetano, um pouco de Djavan... aprendemos muitas músicas nessa época. Eu escrevia, lia para ela e ela ouvia. Ainda jovem e, como eu, ainda não burilada no gosto, gostava do que ouvia.

Agora, Sadrinha, Sandrix, cresceu. Não por fora, que ela continua pequena, mas por dentro. Virou uma gente de coração assim maior do que o peito, às vezes acho até que maior do que a vida. Inteligente, sagaz, de olhos apertados quando lê, de voz pequena mas doce que quando canta (perdoem a rima pobre) me encanta. Ela me surpreende quase sempre - coisa que muita gente não consegue mais. Ela o faz, e sempre desse jeito bom, desse jeito amigo que quando desata o nó do peito mostra uma luz sempre variada, que lava e limpa a tristeza do rosto da gente.

Sandrinha, Sandrix, cresceu. E escreve. "Que nem gente grande" (risos). Este é o poema que ela escreveu a propósito... bem, vocês verão:

A Garrafa Pet
08/05/2009

No sinal fechando
Desacelerei meu bom carro
Meu som alto
Meu bom mundo

No sinal fechado
Ele vinha contente
Sorrindo bem distante
No mundo bom dele

O menino contagiou-me
Sorri junto e fiquei feliz
Debaixo da linha do metrô
No bairro de Santana

Um menino de farol
E seu carro imaginário
Num instante inesperado
Dei-me conta do que via

Ele mesmo não sabia
Que o brinquedo em que ele estava
Não passava de uma rasa e
Bem amassada garrafa pet

Sem roda
Sem banco
Sem som
E sem direção

Seu sonho o conduzia
Nesta triste alegria
E o menino continuou
No seu carro bom

by Sandra Regina Rosado

Ela (ainda) não sabe que eu pus esse poema aqui. Espero que quando descobrir, não se zangue. É que ela é tímida com seus textos. Mas se ela quiser, tiro. Só não tiro minha declaração de amor, porque isso é meu e meu.

A última pergunta

sempre será a primeira.
será?
"dados insuficientes para uma resposta significativa"
mas uma leitura de The Last Question, de Isaac Asimov, pode ajudar a pensar.
se você (ainda) não lê em inglês, leia aqui A Última Pergunta.

11 de mai de 2009

O prazer de receber o livro


Foram dias de espera e ansiedade. Por causa de uma aula sobre o Modernismo (e mais ainda, devido ao entusiasmo com que minha professora de Literatura Brasileira apresenta o tema, o livro e o autor), comprei, pela Estante Virtual, a edição crítica de "Macunaíma - o herói sem nenhum caráter", de Mário de Andrade, organizada por Telê Porto Ancona Lopez (1978, edição da Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo).


Hoje, finalmente, o livro chegou. Um aparte, antes de continuar, para fazer um comentário sobre o sítio da Estante Virtual: por três vezes ele me proporcionou belos encontros com obras que há muito eu vinha procurando e não encontrava: a primeira com um livro de Mattoso Câmara ("Para o estudo da fonêmica portuguesa" - Padrão Livraria Editora, 1977), a segunda com um de Waldemar Ferreita Netto ("Introdução à fonologia da língua portuguesa" - Hedra, 2001) e agora esta edição crítica de "Macunaíma" que, segundo consta, está há muito esgotada. Um serviço inteligente, rápido e seguro em todas as vezes que dele precisei, além de ter me dado a oportunidade de conhecer pessoalmente algumas livrarias muito interessantes do centro velho do Rio de Janeiro. O criador do sítio está de parabéns e eu recomendo a visita (não, não estou ganhando nenhuma percentagem de desconto para fazer propaganda, mas acho que precisamos aplaudir iniciativas que dão certo e proporcionam serviços de qualidade; é mais útil do que ficar simplesmente resmungando e reclamando daquilo que não funciona - para isso existem os Procons e outros órgãos sérios).


Mas, voltando ao livro. O prazer de recebê-lo quase se igualou ao da leitura, que refiz para o percurso proporcionado pela professora. O que antes me parecera um texto desconexo, um catálogo de termos folclóricos recolhidos por Mário de Andrade de repente passou a fazer muito sentido e se tornou uma deliciosa leitura, uma leitura de descoberta: da arte de seu autor, de suas angústias, de seus anseios, de sua crítica e arguta visão do movimento que ajudou a criar. Macunaíma, o livro, virou um percurso de prazer e de observação de um tempo e de um desejo ideológico que não se cumpriu.


Quando o pacote chegou, embrulhado em papel pardo, com o endereço escrito a mão, a estampa do Correio, o mundo se apagou por alguns minutos. Havia um prazer antecipado, como o do explorador que saber que atrás da parede ou debaixo daquele solo encontra-se um grande tesouro. Tenho paixão pelo objeto livro. Sua forma, sua capa, suas possibilidades de comunicação antes mesmo de ser aberto. Gosto das lombadas, das orelhas, das jaquetas (quando as têm). Gosto de pensar que, fechado, é um bloco de papel, quase um objeto qualquer, algo que poderia passar despercebido pelos nossos sentidos, mas que aberto funciona como um gatilho para a imaginação, um pista de decolagem para os vôos do pensamento. Por isso esse antegozo diante desse objeto fechado.


Não sabia como era a capa do livro, nem em que estado ele de fato estava (a descrição da livraria cadastrada no Estante não dava muitas pistas, embora dissesse que ele estava amarelado e com marcas de uso). Aberto o pacote - não sem antes provocar minha colega de trabalho, que também faz Letras, mas em outra faculdade, exibindo puerilmente orgulhoso o embrulho pardo - fiquei alguns minutos olhando a capa, pesando o livro em uma mão, na outra, nas duas. Abri-o, com cuidado. Está quase soltando na lombada a capa, pelo que precisarei contar com o auxílio luxuoso de minha amiga Luisa, aprendiz de restauradora de livros, ou até mesmo de minha outra amiga, Daisy, que fez para mim uma belíssima encadernação em um livro de contos do Tosltoi, embora tenha levado quase quatro anos para me entregar o volume pronto. Pensando bem, pelo menos por enquanto, melhor não. Melhor cuidar dele aqui mesmo, lê-lo (para o trabalho da faculdade, claro) e só então entregá-lo ao meticuloso cuidado de minha amiga que, apesar do nome, é uma japonesa de fala mansa e excelente conhecedora de seu ofício (é livreira das boas).


Depois de folheá-lo um pouco, fechei-o e guardei-o com carinho na mochila. Infelizmente não poderia começar a explorá-lo alí, no escritório, embora o trabalho de hoje bem merecesse ser ignorado em favor do prazer da leitura. Mas cheguei em casa, gazeteando uma chatíssima aula de sintaxe do português (gramática gerativa - para aqueles que juram que entendem o que o Chomsky fala), para poder contar dessa aquisição. Depois, se tudo der certo, inclusive meu trabalho de faculdade, conto o resultado da leitura.


Abraços,

F.
Ilustração: página XXXI da introdução da edição crítica, que reproduz a capa anotada por Mário de Andrade.