14 de set de 2011

O silêncio

Chego em casa cansado. O diafragma dói com tanta tosse (hoje até que estou melhor). Duas semanas de incômodo na garganta, com uma faringite que está aguda e que, receio, possa vir a se tornar crônica. Duas semanas, quatro vidros de xarope, caixas e caixas de comprimidos depois, ainda tenho crises de tosse de acordar o prédio.

Eu estou doente. Estar que dizer que é passageiro. E sigo as prescrições médicas à risca, porque quero que passe. Mas enquanto não passa não consigo expulsar a estranha sensação de que não, pode não passar. Que a angústia de estar adoentado, sem fome, sem disposição, sem tesão pode ter fundamento se essa "coisa" que se instalou não for embora. E se não for embora?

Não pense. Não dê a ela a chance de se instalar definitivamente, de sentar-se à mesa com você, de estatelar-se no sofá,  deixando você sentar no chão, de ocupar quase toda a cama condenando você a uma beirada que pode te fazer acordar no chão. Não. Ela, essa insidiosa, não vai ter vez!

Chego em casa cansado, tiro o blazer, jogo-o sobre o encosto do sofá e ali ele dormirá até amanhã. No trem vinha pensando em uma música. Era Brahms, introdução do movimento lento do concerto para piano nº 2. Mas não foi isso que ouvi quando cheguei. Normalmente chego em silêncio em casa. Porque ele é tão raro na minha vida, na minha cidade, no meu trabalho, no meu cubículo no escritório, que quando eu chego em casa preciso não ouvir nada - ou ouvir o menos possível dos ruídos que me circundam, como a cachorra que vive na janela do apartamento de baixo e que late exageradamente às 23h00 todos os dias; ou o vizinho de cima que tem mania de bater as portas dos móveis; ou os carros que sobem a rua correndo porque a ladeira é íngreme (uma maldição de Perdizes) cantando seus pneus com aquela "voz" estridente e assustadora de filme de terror. Preciso do silêncio para que meu espírito chegue junto ao meu corpo. Porque ando sempre tão acelerado que não dou conta de manter os dois juntos. Um está sempre descompassado do outro. Então, chego em casa, sento e fico em silêncio, quinze, vinte minutos, e espero que essas duas partes do meu ser se encontrem e se reestabilizem.

Mas hoje não seria o silêncio que me faria isso. Nem seria Brahms. Mas Ravel, com o adágio de seu concerto em sol. Michelangeli faz uma delicada entrada e durante longos minutos o movimento é apenas o som de seu piano, num encadeamento melodioso de notas que vão entrando umas nas outras como fios de ouro e prata se entrelaçando. E quando entra a orquestra não é um rompimento, mas uma continuidade daquela melodia delicada, tecida em filigranas por mãos hábeis (as do compositor e as do pianista). E me entrego. Sentado, deixo que a música entre e vá tomando conta dos meus poros, da minha pele, dos meus músculos, dos meus ossos. Ela me imobiliza e meu espírito chega, pousa, cai delicadamente sobre meu corpo como uma fina mortalha de seda sobre um cadáver languido, como uma leve camada de neve sobre plátanos nus, como cinza de vulcão sobre ruínas romanas, como garoa fina sobre veludo. Quando os últimos acordes se desmancham no ar, o silêncio é mais puro, o ar é mais frio, o peso da vida e da morte... mais leve.

Durante oito minutos, nenhuma tosse, nenhuma lembrança dessa coisa estranha que se instalou na minha garganta, que me corta a voz, que me tira o ânimo. Durante oito minutos existem somente o vácuo do universo e a melodia. Depois, o vácuo e seu silêncio. O raro, delicado, reconfortante, inebriante, sutil e etéreo silêncio em que só se pode entrar se se tiver a chave da catedral da própria alma.