11 de mai de 2009

O prazer de receber o livro


Foram dias de espera e ansiedade. Por causa de uma aula sobre o Modernismo (e mais ainda, devido ao entusiasmo com que minha professora de Literatura Brasileira apresenta o tema, o livro e o autor), comprei, pela Estante Virtual, a edição crítica de "Macunaíma - o herói sem nenhum caráter", de Mário de Andrade, organizada por Telê Porto Ancona Lopez (1978, edição da Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo).


Hoje, finalmente, o livro chegou. Um aparte, antes de continuar, para fazer um comentário sobre o sítio da Estante Virtual: por três vezes ele me proporcionou belos encontros com obras que há muito eu vinha procurando e não encontrava: a primeira com um livro de Mattoso Câmara ("Para o estudo da fonêmica portuguesa" - Padrão Livraria Editora, 1977), a segunda com um de Waldemar Ferreita Netto ("Introdução à fonologia da língua portuguesa" - Hedra, 2001) e agora esta edição crítica de "Macunaíma" que, segundo consta, está há muito esgotada. Um serviço inteligente, rápido e seguro em todas as vezes que dele precisei, além de ter me dado a oportunidade de conhecer pessoalmente algumas livrarias muito interessantes do centro velho do Rio de Janeiro. O criador do sítio está de parabéns e eu recomendo a visita (não, não estou ganhando nenhuma percentagem de desconto para fazer propaganda, mas acho que precisamos aplaudir iniciativas que dão certo e proporcionam serviços de qualidade; é mais útil do que ficar simplesmente resmungando e reclamando daquilo que não funciona - para isso existem os Procons e outros órgãos sérios).


Mas, voltando ao livro. O prazer de recebê-lo quase se igualou ao da leitura, que refiz para o percurso proporcionado pela professora. O que antes me parecera um texto desconexo, um catálogo de termos folclóricos recolhidos por Mário de Andrade de repente passou a fazer muito sentido e se tornou uma deliciosa leitura, uma leitura de descoberta: da arte de seu autor, de suas angústias, de seus anseios, de sua crítica e arguta visão do movimento que ajudou a criar. Macunaíma, o livro, virou um percurso de prazer e de observação de um tempo e de um desejo ideológico que não se cumpriu.


Quando o pacote chegou, embrulhado em papel pardo, com o endereço escrito a mão, a estampa do Correio, o mundo se apagou por alguns minutos. Havia um prazer antecipado, como o do explorador que saber que atrás da parede ou debaixo daquele solo encontra-se um grande tesouro. Tenho paixão pelo objeto livro. Sua forma, sua capa, suas possibilidades de comunicação antes mesmo de ser aberto. Gosto das lombadas, das orelhas, das jaquetas (quando as têm). Gosto de pensar que, fechado, é um bloco de papel, quase um objeto qualquer, algo que poderia passar despercebido pelos nossos sentidos, mas que aberto funciona como um gatilho para a imaginação, um pista de decolagem para os vôos do pensamento. Por isso esse antegozo diante desse objeto fechado.


Não sabia como era a capa do livro, nem em que estado ele de fato estava (a descrição da livraria cadastrada no Estante não dava muitas pistas, embora dissesse que ele estava amarelado e com marcas de uso). Aberto o pacote - não sem antes provocar minha colega de trabalho, que também faz Letras, mas em outra faculdade, exibindo puerilmente orgulhoso o embrulho pardo - fiquei alguns minutos olhando a capa, pesando o livro em uma mão, na outra, nas duas. Abri-o, com cuidado. Está quase soltando na lombada a capa, pelo que precisarei contar com o auxílio luxuoso de minha amiga Luisa, aprendiz de restauradora de livros, ou até mesmo de minha outra amiga, Daisy, que fez para mim uma belíssima encadernação em um livro de contos do Tosltoi, embora tenha levado quase quatro anos para me entregar o volume pronto. Pensando bem, pelo menos por enquanto, melhor não. Melhor cuidar dele aqui mesmo, lê-lo (para o trabalho da faculdade, claro) e só então entregá-lo ao meticuloso cuidado de minha amiga que, apesar do nome, é uma japonesa de fala mansa e excelente conhecedora de seu ofício (é livreira das boas).


Depois de folheá-lo um pouco, fechei-o e guardei-o com carinho na mochila. Infelizmente não poderia começar a explorá-lo alí, no escritório, embora o trabalho de hoje bem merecesse ser ignorado em favor do prazer da leitura. Mas cheguei em casa, gazeteando uma chatíssima aula de sintaxe do português (gramática gerativa - para aqueles que juram que entendem o que o Chomsky fala), para poder contar dessa aquisição. Depois, se tudo der certo, inclusive meu trabalho de faculdade, conto o resultado da leitura.


Abraços,

F.
Ilustração: página XXXI da introdução da edição crítica, que reproduz a capa anotada por Mário de Andrade.

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