13 de ago de 2010

Diário de Viagem - o curso

Vamos pular algumas coisas de rotina. Já falei do alojamento, já mostrei as fotos. O curso. Bem, o curso é muito bom. Muito mesmo. Estou vendo (não necessariamente aprendendo - essa é uma outra história) coisas que nenhum curso de inglês mostraria, mas que são essenciais quando pensamos em comunicação em outra língua. Porque não é só, absolutamente, de fonética que o curso trata, mas também de intonação e do quanto de significado ela carrega, principalmente no inglês padrão da Inglaterra - chamado, normalmente, de RP (received pronunciation), de BBC English e, mais antiquadamente, de Queen's English. De fato, é a variante de prestígio, uma espécie de "língua-padrão", porque serve como principal parâmetro para o ensino do idioma, tanto para nativos quanto para estrangeiros.

A questão é que o curso é um super-concentrado teórico que encapsula em 10 dias o que normalmente se levaria um ano letivo para dar. Isso não significa, de forma alguma, que o curso seja superficial no sentido pejorativo do termo. Ele oferece uma excelente base para se trabalhar detalhes de pronúncia, fluência, audição e compreensão da língua.

À medida que a semana foi terminando os tópicos foram ficando cada vez mais complexos, com palestras e aulas cada vez mais investigativas dos aspectos da língua, vistos não mais no contexto de sons isolados, ou de palavras isoladas, mas em unidades complexas de comunicação (frase, sentença, oração) e de como esses elementos carregam mais significado do que transparecem, dependendo de como são enunciados.

É aí que está começando a minha dificuldade. A língua inglesa, na Inglaterra, contém um elemento de estratificação social muito carregado. Por menos que os professores queiram admitir, a separação de classes de acordo com o sotaque ou a variação regional usada por um falante nativo ainda é muito marcada. E isso, invariavelmente, se transfere para a língua ensinada na escola. Não vou discorrer aqui sobre a estratificação social inglesa, nem dar exemplos, porque não dá para exemplificar aqui (são particularidades relacionadas ao universo da fala, não da escrita). Mas o fato é que a comunicação é fortemente marcada pelo tipo de intonação dada às enunciações. Existem, classificadas e estudadas, sete delas em inglês - cada uma com cargas semânticas distintas, algumas carregando mais do que uma. E são tão sutis algumas variações entre umas e outras que, de repente, a gente fica com medo de entrar numa cafeteria para pedir café com pão e, devido a um "thank you" dito de maneira errada acabar recebendo uma testa franzida em lugar de um sorriso.

É claro que essas variações acabam sendo perceptíveis no dia a dia (em português também temos distinções claras em que o sentido de uma palavra ou frase muda de acordo com a intonação que damos), mas quando paramos para ouvir e estudar atentamente essas falas, elas acabam se tornando muito sutis. Quando eu estou aí conversando com os amigos, tenho a mania de fazer "a-hã" o tempo todo e, algumas vezes, isso soa irônico ou sarcástico, mesmo quando não tenho a intenção e o faço apenas para sinalizar que estou prestando atenção à conversa. A mesma coisa acontece com outras palavras. Um "obrigado" pode significar tanto um agradecimento sincero quanto um ressentimento por algo que nos foi feito ou dito que nos parece incorreta ou injusta. Imagine fazer isso em língua estrangeira, em uma cultura que tem, naturalmente, um senso de humor diferente do nosso e cuja percepção do mundo passa por filtros culturais, educacionais, políticos e sociais completamente diversos daqueles pelos quais passa a nossa? Dá para perceber o tamanho da encrenca.

Pois estamos exatamente nessa parte do curso. É muito difícil perceber as sutilezas da língua falada e do quanto um simples "thank you" pode carregar de significado. Hoje saí da aula com mais inseguranças do que certezas. Tim, o professor que está dando percepção (ear training) disse-me ontem que a teoria dada no curso começa a assentar de fato na nossa cabeça umas duas semanas depois de terminado o curso. De fato, é muita informação. Mas a estrutura do curso é bacana e, embora a pressão do volume de dados seja grande, as palestras e aulas são muito bem organizadas.

O dia começa às 9, com uma palestra para todos os alunos (140) que introduz o tema do dia (e, depois do primeiro dia, complementa o tema do anterior). Dura 50 minutos e daí partimos para a aula de pronúncia, com um tutor, em um grupo pequeno (na minha sala somos 8). Depois temos uma segunda palestra, que normalmente introduz o próximo tema, que será trabalhado na aula de intonação. Há uma pausa para o café entre a segunda palestra e a aula. Depois temos uma hora de almoço, uma sessão de percepção (ear training) e depois uma palestra às 15, que terminas às 16. Menos hoje, sexta, pois só tivemos a aula de percepção (de onde saí com a certeza de que tenho mais dúvidas hoje em relação ao meu inglês do que quando cheguei aqui).

Estava pensando em ir ao Covent Garden comprar uns cookies na Ben's Cookies, mas está chovendo e faz frio - esse é o verão britânico. Hoje a previsão é de 19 graus, no máximo. Como esqueci meus casacos-coringa (o azul e o vermelho), não me resta saída a não ser por o blazer. Ainda bem que trouxe meus dois cachecóis, porque o frio aqui corta. Não quero nem imaginar isso aqui com neve.

Como o British Museum, aparentemente, fecha mais tarde às sextas, vou aproveitar para ir lá. Por isso, deixo vocês aqui, com um post verdadeiramente sem fotos.

Até.

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