1 de mai de 2009

Quase encontros

“A vida é a arte do encontro
embora haja tanto desencontro nessa vida”
(Vinícius de Morais)

Quando pensamos na rapidez com que relações sociais se desfazem antes mesmo de serem estabelecidas, constatamos que estamos, aos poucos, perdendo contato com o outro, o qual, ao deixar de ser referencial para nossas próprias contradições, nos priva do olhar crítico sobre nós mesmos. Nossa problemática cotidiana será, assim, sempre maior do que a do vizinho e nos será sempre mais difícil “fazer contato” com esse outro ser humano com quem cruzamos nos espaços comuns da vida social. O mundo “moderno”, com suas promessas tecnológicas de conexão global, roubou-nos o olhar direto no rosto do vizinho, do jornaleiro, do entregador de pizzas, da balconista, substituindo-o pela possibilidade de conversarmos com essas mesmas pessoas, mas só que do outro lado do mundo e filtradas pela tecnologia asséptica e fria dos “sites de relacionamento” e “programas de bate-papo”, em que podemos ser quem quisermos, menos nós mesmos, já que é mais fácil alimentar a fantasia de sermos o oposto do que somos em nossa (para nós) vida banal.

Assim, em um mundo de relações cada vez mais virtuais, “protegidas” dos perigos da “vida real” que permeiam nosso urbano cotidiano, erguemos barreiras cada vez maiores no contato com o outro. Perdemos a noção da “arte do encontro”, de que falava Vinícius — numa época em que a internet ainda não nos privara das oportunidades de exercê-la. E, para justificar a distância, passamos a preencher a vida com pequenas fatalidades cotidianas.

A este respeito, a leitura do poema “Encontros”, de Nelson Ascher, suscita algumas reflexões.

Encontros
(Nelson Ascher)

Há gente que eu encontro
na rua e me sorri
(o fósforo, dormindo
ensimesmado dentro

da caixa, sonha incêndios) (5)
e eu lhes sorrio; há gente
que encontro numa loja
e me sorri (a lâmina

da faca que repousa
numa gaveta aguarda (10)
o dedo distraído)
e eu lhes sorrio; há gente

que encontro na garagem
e me sorri (o fio
se aquece na parede (15)
acalentando alguma

faísca) e eu lhes sorrio;
há gente que eu encontro
até no elevador
e me sorri (a carne (20)

que está na geladeira
fermenta aos poucos sua
toxina), eu lhes sorrio
e cada qual de nós,

descendo em seu andar, (25)
ligando o carro (salvo
se acaba de guardá-lo),
fazendo (ou não) as compras

e prosseguindo rua
abaixo ou rua acima, (30)
medita na segunda
lei da termodinâmica.

O poema parece todo construído de forma a poder expressar esse constante e crescente distanciar dos seres e o conseqüente desconforto nas eventuais tentativas de re-aproximação. Senão vejamos:

O ato de sorrir e o de retribuir o sorriso, possibilidade do encontro, são repetidos no correr do poema, mas entre o sorriso do outro e a retribuição do sorriso pelo eu lírico, interpõem-se imagens de fatalidades (o fósforo... a lâmina da faca... o fio...a carne...) que podem ocorrer a qualquer momento.

O espaço em que se esboça cada encontro vai se tornando cada vez menor, mais forçosamente íntimo:
“Há gente que eu encontro na rua /numa loja/na garagem/no elevador e me sorri, e eu lhes sorrio”

Mas a força da “fatalidade” relacionada com cada espaço em que ocorrem os encontros parece se intensificar de forma proporcional à proximidade dos corpos. Quanto mais próximos fisicamente, mais surda parece a ação contrária ao encontro - insuportável proximidade:

“(o fósforo, dormindo ensimesmado dentro da caixa, sonha incêndios)” – fogo na rua
“(a lâmina da faca que repousa numa gaveta aguarda o dedo distraído)” – corte na loja
“(o fio que se aquece na parede acalentando alguma faísca)” –choque na garagem
“(a carne que está na geladeira fermenta aos poucos sua toxina)” – veneno no elevador

Como se, para cada esboço de encontro, entre aquele que primeiro sorri e o poeta, entre o sorriso do primeiro e o sorriso de resposta, houvesse uma barreira extrema, erguida de forma a distanciar violentamente quem enseja a aproximação. Mas erguida por quem? Pelo outro? Pelo eu lírico?

O ato de sorrir pode implicar em necessidade de empatia. Ora, pode ser mais difícil sorrir para alguém, qualquer um, na rua do que numa loja; mais ainda na garagem ou no elevador, onde, diante do rosto vizinho e familiar, o sorriso pode levar ao cumprimento.

Essa cordialidade cotidiana descrita no poema está sob constante tensão, permeada de sentimentos ocultos de aversão, de afastamento, de destruição. Do outro? Do eu lírico? Não parece ser por acaso que o fósforo está “dormindo ensimesmado dentro da caixa”, que a lâmina da faca repousa na gaveta, que o fio se aquece no íntimo da parede e que a carne, encerrada na geladeira, longe dos olhos, fermenta suas toxinas. O incêndio, o corte, o choque e o envenenamento estão lá e podem ser a qualquer momento desencadeados.

A estrutura de quatro versos brancos - brancos de ausência, ausência do eco da rima –, de seis sílabas cada um, “quebra” a leitura do texto; o ritmo cindido pelas interpolações, na sua distribuição pelos versos, empresta-lhes tensão e uma impressão de desconforto, como o desconforto diante do sorriso do estranho. É como se, enquanto o eu lírico descreve as cenas de possíveis encontros, seu pensamento aparecesse estranho, avesso ao ato cordial do outro. O desconforto sentido pelo enunciador nos é transmitido também pelo desconforto que as próprias imagens desses seus “pensamentos” nos causa (a lâmina [...] aguarda o dedo distraído; a carne [...] fermenta [...] sua toxina). Maneira de nos lembrar a todo instante de que aquela situação, aquele encontro, incomoda.

Nas duas últimas estrofes há uma retomada dos espaços de encontro, mas agora como espaços de dispersão: o outro desce em seu andar (elevador), liga (ou guarda) o carro (garagem), faz suas compras (loja) ou prossegue “rua abaixo ou rua acima” (rua). Até mesmo a ordem de enunciação dos espaços que, no decorrer do poema, era do mais amplo para o mais restrito, se altera, indo do mais restrito (elevador) para o mais aberto (rua). O efeito de abertura, escoamento, e por que não de alívio pelo fim da incômoda situação, é acentuado pela seqüência rápida em que aparecem os verbos no gerúndio (cada qual de nós, descendo em seu andar, ligando o carro, [...] fazendo [...] as compras [...], prosseguindo rua abaixo ou rua acima). O encontro acaba, o desconforto se dissipa e cada um “medita na segunda lei da termodinâmica”. Mas poderia meditar sobre qualquer outra coisa, desde que não fosse o recente encontro. Como se o poeta dissesse que cada um segue seu caminho, absorvido pelos próprios pensamentos, que poderiam ser sobre náutica, robótica ou física quântica.

Mas, para além do mero acaso da multidão dos pensamentos, por que exatamente a segunda lei da termodinâmica? Ora, segundo um de seus possíveis enunciados, “o calor não pode fluir livremente de um material mais frio para um material mais quente”. O caminho é, necessariamente, inverso, havendo perda de energia durante o processo. Então, extrapolando um pouco, podemos pensar que essa gente “que encontro na rua e me sorri” pode estar buscando o calor humano do poeta, a recuperação do contato primordial, mas que a transferência não se realiza exatamente porque um é mais frio que os outros.
Há talvez, no poema de Ascher, uma crítica ao isolacionismo cada vez mais dominante nestes tempos modernos, em que as relações se fragmentaram e se “digitalizaram”, pulverizando-se no impalpável mundo tecnológico e frio da virtualidade, enquanto aqui fora, no mundo real, abandona-se cada vez mais a “arte do encontro”.

2 comentários:

  1. Bela leitura: obrigado.

    Acho que há dois textos que vc gostaria de ler: um poema do José Paulo Paes chamado "Entropia" e um conto do Isaac Asimov chamado "The Last Question" (existe online).

    abs

    nelson ascher

    ascher@uol.com.br

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  2. Que prazer entrar em contato com tão intrigante tema através do, na minha leitura, contundente poema de Nelson Ascher. Tenho que confessar que o impacto do poema, voltando a ele após ler o seu texto, Flávio, foi de fato muito mais profundo. Pausa no trabalho e pausa "na Manu" valeram a pena. Acho que não cabe exatamente um parabéns pelo blog, mas um obrigado por dividir conosco as ricas reflexões.
    Um beijo carinhoso,
    Ana.

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