Pois é. A viagem já começou, já estou aqui há três dias e ainda não fiz nenhum post. Desculpem-me. Até escrevi o rascunho do post que deveria ser o número 1, mas ficou longo, chato e eu estava terrivelmente sonolento quando o fiz ontem à noite.
Fiz pouquíssimas fotos e ainda não fiz muito do que gostaria de ter feito, mas isso e assunto para outra hora. Um resumo dos últimos três dias para não ficar muito sem graça:
A viagem com a Singapore Airlines foi ótima, a tripulação é toda do país de origem e as comissárias usam um belíssimo e elegante uniforme com estampas coloridas de sua terra. A comida é excelente para os padrões de uma classe econômica de vôo internacional e o avião é um 777-300ER bem novinho, com uma seleção de distrações vasta, para todos os gostos - vale ressaltar as opções de filmes chineses, japoneses, indianos e de outras nacionalidades cujo cinema não é divulgado nas bandas de cá.
O vôo chegou com uma hora de antecedência no incrivelmente bonito aeroporto de Bracelona: um festival de vidro que deixa tudo extremamente banhado em luz natural. O dia estava lindo e a temperatura agradável (13 graus). A imigração foi tranquilíssima e os agentes extremamente simpáticos - mesmo trabalhando no domingo de Natal. As malas chegaram sem problemas, o transfer estava lá como programado e o hotel perto do aeroporto é muito bom, com pessoas muito atenciosas e travesseiros que fazem qualquer um querer dormir até tarde.
A viagem para Londres também foi tranquila no Airbus A320 da British Airways com poltronas de couro e, tive a impressão, ligeiramente mais largas do que o habitual. Comissários (só uma mulher) eficientes e atenciosos, como se espera. Como chegamos ao aeroporto muito cedo, tomamos um café da manhã reforçado na lanchonete e acabamos dispensando o do avião. O tempo em Londres também estava ótimo, com a mesma temperatura de Barcelona, embora nublado. O metrô estava em greve e isso atrapalhou um pouco a nossa chegada, já que tivemos que pegar um ônibus até a estação de Paddington. O táxi do aeroporto até o centro ficsaria em 80 libras, o que é um rombo em um orçamento apertado. Acabamos pegando um de Paddington até o hotel e, de fato, é um veículo realmente interessante e espaçoso - depois dou mais detalhes.
O primeiro dia em Londres foi cansativo e pouco produtivo, o que prejudicou um pouco nossa apreciação do concerto de música barroca na St. Martin-in-the-Fields. Ainda assim, foi gratificante e eu fiquei muito emocionado por estar realizando um dos meus sonhos, que era assistir um concerto ali. Na segunda parte, a "'Aria sobre a corda Sol", de Bach, foi outra experiência maravilhosa e emocionante - de chorar mesmo, e eu não me fiz de rogado e deixei cair todas as lágrimas a que tinha direito.
Fizemos algumas fotos em Trafalgar Square à noite (aliás, informo que no inverno o sol se põe às 4h30 por aqui) e depois voltamos para casa. A segunda pele segura bem o frio, mas quase morro mesmo de calor, porque minha jaqueta dublinense é um forno! Corta o vento e aquece muito, ainda mais em caminhada. Conclusão: tenho usado somente a calça da segunda pele. E entre caminhadas e paradas é um tal de põe e tira roupa que quase dá vontade de ficar pelado de uma vez. Todos os estabelecimentos são aquecidos, mas a uma temperatura que parece querer assar quem entra. Quando a gente sai o frio acaba sendo uma bênção. Por enquanto nada de neve ou baixas temperatura e os londrinos estão felicíssimos com o "veranico" deles.
A chuva não deu as caras, mas parece que vai pintar na quinta-feira, que é o dia da exposição do Da Vinci e do concerto da Nona de Beethoven no Barbican. Hoje foi um dia de compras - para meu desespero. Presentes para os amigos que vou visitar na França e na Itália, um novo par de botas - descobri da pior maneira possível que o que eu trouxe iria me recordar o que é uma fascite plantar caso eu insistisse em usá-lo e mais uns mimos aqui e ali antes de voltar para casa.
Minha vontade é quase mandar tudo às favas e ficar aqui mesmo, pelo tanto que me identifico com esta cidade. Mesmo ela estando sempre cheia de turistas - nem o frio os espanta. Quase todas as lojas estão com descontos de até 70 por cento, o que torna a caminhada pela Oxford Street depois das quatro uma aventura digna de 25 de março em véspera de Natal. Ainda bem que isso ficou para trás...
Amanhã temos Abadia de Westminster, Palácio de Buckingham, Parlamento, Big Ben, London Eye, Globe Theatre, Southark Cathedral, London Bridge, St. Paul`s Cathedral, e terminamos o dia na Tate Britain.
Agora vou baixar o iTunes e copiar para o meu iPod Classic o "Pássaro de Fogo" regido pelo próprio Stravinsky, uma inspirada seleção de obras do Vivaldi e todoo os 16 CDs da caixinha com a obra completa de Mahler interpretadas por grandes nomes. Tenho um noite longa pela frente...
Beijos a todos.
27 de dez. de 2011
14 de set. de 2011
O silêncio
Chego em casa cansado. O diafragma dói com tanta tosse (hoje até que estou melhor). Duas semanas de incômodo na garganta, com uma faringite que está aguda e que, receio, possa vir a se tornar crônica. Duas semanas, quatro vidros de xarope, caixas e caixas de comprimidos depois, ainda tenho crises de tosse de acordar o prédio.
Eu estou doente. Estar que dizer que é passageiro. E sigo as prescrições médicas à risca, porque quero que passe. Mas enquanto não passa não consigo expulsar a estranha sensação de que não, pode não passar. Que a angústia de estar adoentado, sem fome, sem disposição, sem tesão pode ter fundamento se essa "coisa" que se instalou não for embora. E se não for embora?
Não pense. Não dê a ela a chance de se instalar definitivamente, de sentar-se à mesa com você, de estatelar-se no sofá, deixando você sentar no chão, de ocupar quase toda a cama condenando você a uma beirada que pode te fazer acordar no chão. Não. Ela, essa insidiosa, não vai ter vez!
Chego em casa cansado, tiro o blazer, jogo-o sobre o encosto do sofá e ali ele dormirá até amanhã. No trem vinha pensando em uma música. Era Brahms, introdução do movimento lento do concerto para piano nº 2. Mas não foi isso que ouvi quando cheguei. Normalmente chego em silêncio em casa. Porque ele é tão raro na minha vida, na minha cidade, no meu trabalho, no meu cubículo no escritório, que quando eu chego em casa preciso não ouvir nada - ou ouvir o menos possível dos ruídos que me circundam, como a cachorra que vive na janela do apartamento de baixo e que late exageradamente às 23h00 todos os dias; ou o vizinho de cima que tem mania de bater as portas dos móveis; ou os carros que sobem a rua correndo porque a ladeira é íngreme (uma maldição de Perdizes) cantando seus pneus com aquela "voz" estridente e assustadora de filme de terror. Preciso do silêncio para que meu espírito chegue junto ao meu corpo. Porque ando sempre tão acelerado que não dou conta de manter os dois juntos. Um está sempre descompassado do outro. Então, chego em casa, sento e fico em silêncio, quinze, vinte minutos, e espero que essas duas partes do meu ser se encontrem e se reestabilizem.
Mas hoje não seria o silêncio que me faria isso. Nem seria Brahms. Mas Ravel, com o adágio de seu concerto em sol. Michelangeli faz uma delicada entrada e durante longos minutos o movimento é apenas o som de seu piano, num encadeamento melodioso de notas que vão entrando umas nas outras como fios de ouro e prata se entrelaçando. E quando entra a orquestra não é um rompimento, mas uma continuidade daquela melodia delicada, tecida em filigranas por mãos hábeis (as do compositor e as do pianista). E me entrego. Sentado, deixo que a música entre e vá tomando conta dos meus poros, da minha pele, dos meus músculos, dos meus ossos. Ela me imobiliza e meu espírito chega, pousa, cai delicadamente sobre meu corpo como uma fina mortalha de seda sobre um cadáver languido, como uma leve camada de neve sobre plátanos nus, como cinza de vulcão sobre ruínas romanas, como garoa fina sobre veludo. Quando os últimos acordes se desmancham no ar, o silêncio é mais puro, o ar é mais frio, o peso da vida e da morte... mais leve.
Durante oito minutos, nenhuma tosse, nenhuma lembrança dessa coisa estranha que se instalou na minha garganta, que me corta a voz, que me tira o ânimo. Durante oito minutos existem somente o vácuo do universo e a melodia. Depois, o vácuo e seu silêncio. O raro, delicado, reconfortante, inebriante, sutil e etéreo silêncio em que só se pode entrar se se tiver a chave da catedral da própria alma.
Eu estou doente. Estar que dizer que é passageiro. E sigo as prescrições médicas à risca, porque quero que passe. Mas enquanto não passa não consigo expulsar a estranha sensação de que não, pode não passar. Que a angústia de estar adoentado, sem fome, sem disposição, sem tesão pode ter fundamento se essa "coisa" que se instalou não for embora. E se não for embora?
Não pense. Não dê a ela a chance de se instalar definitivamente, de sentar-se à mesa com você, de estatelar-se no sofá, deixando você sentar no chão, de ocupar quase toda a cama condenando você a uma beirada que pode te fazer acordar no chão. Não. Ela, essa insidiosa, não vai ter vez!
Chego em casa cansado, tiro o blazer, jogo-o sobre o encosto do sofá e ali ele dormirá até amanhã. No trem vinha pensando em uma música. Era Brahms, introdução do movimento lento do concerto para piano nº 2. Mas não foi isso que ouvi quando cheguei. Normalmente chego em silêncio em casa. Porque ele é tão raro na minha vida, na minha cidade, no meu trabalho, no meu cubículo no escritório, que quando eu chego em casa preciso não ouvir nada - ou ouvir o menos possível dos ruídos que me circundam, como a cachorra que vive na janela do apartamento de baixo e que late exageradamente às 23h00 todos os dias; ou o vizinho de cima que tem mania de bater as portas dos móveis; ou os carros que sobem a rua correndo porque a ladeira é íngreme (uma maldição de Perdizes) cantando seus pneus com aquela "voz" estridente e assustadora de filme de terror. Preciso do silêncio para que meu espírito chegue junto ao meu corpo. Porque ando sempre tão acelerado que não dou conta de manter os dois juntos. Um está sempre descompassado do outro. Então, chego em casa, sento e fico em silêncio, quinze, vinte minutos, e espero que essas duas partes do meu ser se encontrem e se reestabilizem.
Mas hoje não seria o silêncio que me faria isso. Nem seria Brahms. Mas Ravel, com o adágio de seu concerto em sol. Michelangeli faz uma delicada entrada e durante longos minutos o movimento é apenas o som de seu piano, num encadeamento melodioso de notas que vão entrando umas nas outras como fios de ouro e prata se entrelaçando. E quando entra a orquestra não é um rompimento, mas uma continuidade daquela melodia delicada, tecida em filigranas por mãos hábeis (as do compositor e as do pianista). E me entrego. Sentado, deixo que a música entre e vá tomando conta dos meus poros, da minha pele, dos meus músculos, dos meus ossos. Ela me imobiliza e meu espírito chega, pousa, cai delicadamente sobre meu corpo como uma fina mortalha de seda sobre um cadáver languido, como uma leve camada de neve sobre plátanos nus, como cinza de vulcão sobre ruínas romanas, como garoa fina sobre veludo. Quando os últimos acordes se desmancham no ar, o silêncio é mais puro, o ar é mais frio, o peso da vida e da morte... mais leve.
Durante oito minutos, nenhuma tosse, nenhuma lembrança dessa coisa estranha que se instalou na minha garganta, que me corta a voz, que me tira o ânimo. Durante oito minutos existem somente o vácuo do universo e a melodia. Depois, o vácuo e seu silêncio. O raro, delicado, reconfortante, inebriante, sutil e etéreo silêncio em que só se pode entrar se se tiver a chave da catedral da própria alma.
1 de set. de 2011
Porque não posso ir para o céu
Uma pessoa do meu relacionamento profissional, a respeito do meu desdobramento para fazer um favor a uma pessoa inconveniente, disse-me que eu iria "direto para o céu, sem escalas". Apesar da dramaticidade da declaração, a vejo como reconhecimento por aquilo que deveria fazer parte do cotidiano, que é tentar fazer o melhor trabalho possível, dentro das condições materiais que temos. Já do ponto de vista espiritual, se eu acreditasse na simplicidade da existência de um céu ou um inferno - acredito na necessidade de desenvolvimento do espírito através de reencarnações múltiplas, mas isso é a minha crença, não a imponho a ninguém - ainda assim, não poderia concordar com a afirmação que essa colega fez. Por isso, respondi o seguinte para ela:
Não, não vou direto aos céus porque, em lugar de me resignar diante das vicissitudes, revolto-me, coloco minha pequenez humana acima da pequenez alheia e distribuo impropérios aos quatro ventos, manchando minha alma com a nefasta nódoa da ira. Gostaria de ser zen e aceitar serenamente que as pessoas fazem o que fazem e são o que são por não terem ainda compreendido que o respeito à vida e ao outro é maior e mais importante do que suas pequenas regalias ou seus desprezíveis delírios de poder, seja este grande ou pequeno. Não, ao entregar-me ao nada nobre esporte de maldizer esses que agruras nos impõem, direta ou indiretamente, igualo-me a eles e rebaixo minha qualidade como ser humano. Esta, talvez, seja a luta, o “bom combate”: vencer a si mesmo diante da crueldade cotidiana para não sucumbir à brutalidade do mundo, mantendo-se humilde e digno. Infelizmente, para mim, ainda sou “humano, demasiadamente humano” para tal nobre feito.
Nessa minha "demasiada humanidade" percebo, como me disse outra pessoa - esta uma grande amiga, que me conhece há muito tempo e tem mais fé em mim do que eu mesmo - que sou eu quem me permito ser agredido e, consequentemente, extravasar uma "fúria insana" que a) nem responde adequadamente ao que a causou; e b) nem produz absolutamente nada de positivo, nem para mim, nem para os outros.
Então, complementando um pouco o pensamento acima, preciso não desistir de combater. Não é fácil, porque, como bem diz Emir Sader em seu post de 29/8/2011 (clique aqui para ler o texto) "O ceticismo parece um bom refúgio em tempos em que já se decretou o fim das utopias, o fim do socialismo, até mesmo o fim da história. É mais cômodo dizer que não se acredita em nada, que tudo é igual, que nada vale a pena." Não sucumbir ao que Sader chama de 'ceticismo-cinismo' requer certo estoicismo e uma fonte inesgotável de otimismo.
Desconheço fontes inesgotáveis de otimismo, mas procuro cultivar algumas que me confortam e que aos olhos dos outros podem (e talvez sejam) ligeiramente piegas ou clichês - mas como jamais me obriguei ao exercício da originalidade... : meus amigos certamente são a maior fonte de otimismo que tenho. São poucos (contei-os nos dedos outro dia e deu 11 - daqueles com quem "já comi um quilo de sal", como se diz) e totalmente diferentes entre si, e com quem tantas vezes discordei e discuti, mas que jamais deixaram de me proporcionar o alívio emocional & intelectual (sim, isso existe) que me ajudasse a vencer as agruras cotidianas e fizesse querer acordar no dia seguinte.
Dividir a vida com alguém que me respeita e a quem respeito, com quem aprendo um pouco a cada dia sobre moral, determinação e solidariedade e que, apesar de todas as inumeráveis (e algumas vezes intransponíveis) diferenças (principalmente políticas), ainda tem carinho (e tesão) por mim, também me ajuda a erguer a cabeça acima do "estado de coisas" que nos imerge constantemente na brutalidade e na tristeza.
Poder, ainda que eventualmente (pois as pressões do dia-a-dia são muitas), participar de um trabalho voluntário que ajuda pessoas em situação de desespero no Nordeste e ainda várias crianças em São Paulo, porque é prazeroso ajudar (ver aqui: Amigos do Bem).
Além dessas "fontes fixas", sou agraciado com as aleatórias, que surgem do nada e me fazem sorrir de surpreso contentamento. Muitas vezes elas aparecem na forma de textos escritos por blogueiros que acompanho, como a Lola em Escreva, Lola, Escreva, que me faz refletir criticamente sobre o discurso machista que aceitamos como natural - mas que NÃO É -; ou nos desenhos e projetos do Cabelo em seu blog Igual Você, em que fica claro o amor que ele tem por sua família e a fé em uma cidade mais humana e consciente através do uso da bicicleta como meio de transporte; ou nos textos que minha amiga e colega de trabalho Desirée Furoni escreve em seu Espresso e Puro, em que desfia suas delicadas (ou nem sempre-rs) crônicas pessoais e universais com grande sensibilidade; na diversão que são os comentários d'A Livreira Anarquista, de Portugal, e os do [manual prático de bons modos em livrarias], que fazem piada com o sofrimento de atender clientes em livrarias; na lucidez e inteligência, fora a combatividade, de Denise Bottmann em seu excelente não gosto de plágio, onde faz a defesa acalorada da profissão de tradutor e, de quebra, divide generosamente conosco seu modo de trabalho, suas dúvidas e seus questionamentos sobre o ato tradutório (entre outras coisas bacanas); nos comentários ácidos e extremamente pertinentes da Madrasta do Texto Ruim em seu ótimo Objetivando Disponibilizar, em que achincalha, com estilo e humor, os péssimos textos que pululam pelas internets da vida (e em publicações impressas, também).
Todas essas coisas se unem às minhas prosaicas descobertas na lide com a vida de graduando de Letras - e aqui desfio algumas das minhas maiores vergonhas intelectuais, com os devidos agradecimentos às pessoas que me ajudaram a me redimir: encontrar Dickens por causa da faculdade, depois de "Grandes Esperanças" ter 'dormido' durante quase 20 anos em minha estante e chorar logo nas primeiras páginas (obrigado, Sandra Guardini); desfrutar, pela primeira vez, da maravilha que é "Macunaíma", de Mário de Andrade, depois de tê-lo detestado na juventude; ainda, encantar-me com a poesia do mesmo Mário de Andrade e ser solidário a todas as suas angústias artísticas (obrigado, Simone Rufinoni); ler, com olhos despidos de qualquer ideia pré-concebida, os poetas românticos brasileiros e deleitar-me com eles (obrigado, Augusto Massi); vir a saber que é possível ir além do "legal" na leitura de um poema (obrigado, Roberto Zular e Laura Izarra).
Isso não quer dizer que eu ignore as verdadeiras misérias cotidianas, como a fome, a doença, a pobreza, a desigualdade, a corrupção, os interesses econômicos, as guerras etc. Na verdade, isso me leva de volta ao texto do Emir Sader: é por não querer me render ao ceticismo-cinismo que considero essas "fontes de otimismo" importantes para que eu me mantenha combativo, para que eu possa, de alguma forma, fazer um pouco de diferença e trazer alguma transformação para melhor, embora não para mim, porque acho que a colheita deve ser para quem vem depois. Explico: se hoje posso viver nesta democracia "vacilante", mas democracia, é porque outros antes de mim lutaram contra um momento de obscurantismo e de terror, tanto lá atrás, na idade média, quanto ali atrás, na ditadura militar que corroeu muitos dos sonhos de nossos pais, mas não conseguiu lhes extirpar as raízes.
Ou talvez eu seja só um sujeito ingênuo, mesmo.
(desculpem pelo longo post)
Não, não vou direto aos céus porque, em lugar de me resignar diante das vicissitudes, revolto-me, coloco minha pequenez humana acima da pequenez alheia e distribuo impropérios aos quatro ventos, manchando minha alma com a nefasta nódoa da ira. Gostaria de ser zen e aceitar serenamente que as pessoas fazem o que fazem e são o que são por não terem ainda compreendido que o respeito à vida e ao outro é maior e mais importante do que suas pequenas regalias ou seus desprezíveis delírios de poder, seja este grande ou pequeno. Não, ao entregar-me ao nada nobre esporte de maldizer esses que agruras nos impõem, direta ou indiretamente, igualo-me a eles e rebaixo minha qualidade como ser humano. Esta, talvez, seja a luta, o “bom combate”: vencer a si mesmo diante da crueldade cotidiana para não sucumbir à brutalidade do mundo, mantendo-se humilde e digno. Infelizmente, para mim, ainda sou “humano, demasiadamente humano” para tal nobre feito.
Nessa minha "demasiada humanidade" percebo, como me disse outra pessoa - esta uma grande amiga, que me conhece há muito tempo e tem mais fé em mim do que eu mesmo - que sou eu quem me permito ser agredido e, consequentemente, extravasar uma "fúria insana" que a) nem responde adequadamente ao que a causou; e b) nem produz absolutamente nada de positivo, nem para mim, nem para os outros.
Então, complementando um pouco o pensamento acima, preciso não desistir de combater. Não é fácil, porque, como bem diz Emir Sader em seu post de 29/8/2011 (clique aqui para ler o texto) "O ceticismo parece um bom refúgio em tempos em que já se decretou o fim das utopias, o fim do socialismo, até mesmo o fim da história. É mais cômodo dizer que não se acredita em nada, que tudo é igual, que nada vale a pena." Não sucumbir ao que Sader chama de 'ceticismo-cinismo' requer certo estoicismo e uma fonte inesgotável de otimismo.
Desconheço fontes inesgotáveis de otimismo, mas procuro cultivar algumas que me confortam e que aos olhos dos outros podem (e talvez sejam) ligeiramente piegas ou clichês - mas como jamais me obriguei ao exercício da originalidade... : meus amigos certamente são a maior fonte de otimismo que tenho. São poucos (contei-os nos dedos outro dia e deu 11 - daqueles com quem "já comi um quilo de sal", como se diz) e totalmente diferentes entre si, e com quem tantas vezes discordei e discuti, mas que jamais deixaram de me proporcionar o alívio emocional & intelectual (sim, isso existe) que me ajudasse a vencer as agruras cotidianas e fizesse querer acordar no dia seguinte.
Dividir a vida com alguém que me respeita e a quem respeito, com quem aprendo um pouco a cada dia sobre moral, determinação e solidariedade e que, apesar de todas as inumeráveis (e algumas vezes intransponíveis) diferenças (principalmente políticas), ainda tem carinho (e tesão) por mim, também me ajuda a erguer a cabeça acima do "estado de coisas" que nos imerge constantemente na brutalidade e na tristeza.
Poder, ainda que eventualmente (pois as pressões do dia-a-dia são muitas), participar de um trabalho voluntário que ajuda pessoas em situação de desespero no Nordeste e ainda várias crianças em São Paulo, porque é prazeroso ajudar (ver aqui: Amigos do Bem).
Além dessas "fontes fixas", sou agraciado com as aleatórias, que surgem do nada e me fazem sorrir de surpreso contentamento. Muitas vezes elas aparecem na forma de textos escritos por blogueiros que acompanho, como a Lola em Escreva, Lola, Escreva, que me faz refletir criticamente sobre o discurso machista que aceitamos como natural - mas que NÃO É -; ou nos desenhos e projetos do Cabelo em seu blog Igual Você, em que fica claro o amor que ele tem por sua família e a fé em uma cidade mais humana e consciente através do uso da bicicleta como meio de transporte; ou nos textos que minha amiga e colega de trabalho Desirée Furoni escreve em seu Espresso e Puro, em que desfia suas delicadas (ou nem sempre-rs) crônicas pessoais e universais com grande sensibilidade; na diversão que são os comentários d'A Livreira Anarquista, de Portugal, e os do [manual prático de bons modos em livrarias], que fazem piada com o sofrimento de atender clientes em livrarias; na lucidez e inteligência, fora a combatividade, de Denise Bottmann em seu excelente não gosto de plágio, onde faz a defesa acalorada da profissão de tradutor e, de quebra, divide generosamente conosco seu modo de trabalho, suas dúvidas e seus questionamentos sobre o ato tradutório (entre outras coisas bacanas); nos comentários ácidos e extremamente pertinentes da Madrasta do Texto Ruim em seu ótimo Objetivando Disponibilizar, em que achincalha, com estilo e humor, os péssimos textos que pululam pelas internets da vida (e em publicações impressas, também).
Todas essas coisas se unem às minhas prosaicas descobertas na lide com a vida de graduando de Letras - e aqui desfio algumas das minhas maiores vergonhas intelectuais, com os devidos agradecimentos às pessoas que me ajudaram a me redimir: encontrar Dickens por causa da faculdade, depois de "Grandes Esperanças" ter 'dormido' durante quase 20 anos em minha estante e chorar logo nas primeiras páginas (obrigado, Sandra Guardini); desfrutar, pela primeira vez, da maravilha que é "Macunaíma", de Mário de Andrade, depois de tê-lo detestado na juventude; ainda, encantar-me com a poesia do mesmo Mário de Andrade e ser solidário a todas as suas angústias artísticas (obrigado, Simone Rufinoni); ler, com olhos despidos de qualquer ideia pré-concebida, os poetas românticos brasileiros e deleitar-me com eles (obrigado, Augusto Massi); vir a saber que é possível ir além do "legal" na leitura de um poema (obrigado, Roberto Zular e Laura Izarra).
Isso não quer dizer que eu ignore as verdadeiras misérias cotidianas, como a fome, a doença, a pobreza, a desigualdade, a corrupção, os interesses econômicos, as guerras etc. Na verdade, isso me leva de volta ao texto do Emir Sader: é por não querer me render ao ceticismo-cinismo que considero essas "fontes de otimismo" importantes para que eu me mantenha combativo, para que eu possa, de alguma forma, fazer um pouco de diferença e trazer alguma transformação para melhor, embora não para mim, porque acho que a colheita deve ser para quem vem depois. Explico: se hoje posso viver nesta democracia "vacilante", mas democracia, é porque outros antes de mim lutaram contra um momento de obscurantismo e de terror, tanto lá atrás, na idade média, quanto ali atrás, na ditadura militar que corroeu muitos dos sonhos de nossos pais, mas não conseguiu lhes extirpar as raízes.
Ou talvez eu seja só um sujeito ingênuo, mesmo.
(desculpem pelo longo post)
27 de abr. de 2011
Sobre a necessidade de ser forte
Quanto mais eu penso (e constato) as falhas recorrentes do caráter humano, mais me convenço de que a humanidade, se de fato viesse o fim do mundo em 2012, seria a melhor candidata ao extermínio.
Há um predileção humana pela calhordice, pela cafagestagem, pela desonestidade e mesquinhez praticada diuturnamente que me abate e me consome, aos poucos. Eu preciso juntar forças, orações, pedidos, mentalizações para tentar manter o mínimo de sanidade diante de tudo isso. Eu preciso "ser forte". Mas ninguém sabe que a última coisa que eu quero é ser forte. Porque de tanto ter que ser forte perde-se o direito aos momentos de fraqueza, às lágrimas de cansaço ou de tristeza, às pequenas desilusões cotidianas - tudo isso é negado a quem precisa ser forte 24 horas por dia. E, no fim do dia, não existe um braço afetuoso sobre o qual debruçar a cabeça e que te console das agruras do dia; ninguém para dizer baixinho "vai passar" e deixar você ter teu momento de tristeza e angústia - essas, sim, tão humanas; nenhum colo consolador que te aceite na simplicidade e honestidade de tua fraqueza. Não, é preciso ser estóico, um Hércules, que execute todas os seus 12 trabalhos repetidamente sem reclamar, ser se abater, sem esmorecer, sem derramar uma única lágrima. Só que ao me olhar no espelho não vejo nenhum herói - só um ser humano fraco e triste diante de um mundo de pressões inexoráveis.
E que ainda dá graças a Deus por isso.
(uma coisa incompleta e triste que pediu para sair ontem, depois de ouvir comentários sobre a pequenez humana no ambiente de trabalho; às vezes é preciso deixar sair esses sentimentos espúrios para que o otimismo não se perca de todo no mar da hostilidade convivial)
Há um predileção humana pela calhordice, pela cafagestagem, pela desonestidade e mesquinhez praticada diuturnamente que me abate e me consome, aos poucos. Eu preciso juntar forças, orações, pedidos, mentalizações para tentar manter o mínimo de sanidade diante de tudo isso. Eu preciso "ser forte". Mas ninguém sabe que a última coisa que eu quero é ser forte. Porque de tanto ter que ser forte perde-se o direito aos momentos de fraqueza, às lágrimas de cansaço ou de tristeza, às pequenas desilusões cotidianas - tudo isso é negado a quem precisa ser forte 24 horas por dia. E, no fim do dia, não existe um braço afetuoso sobre o qual debruçar a cabeça e que te console das agruras do dia; ninguém para dizer baixinho "vai passar" e deixar você ter teu momento de tristeza e angústia - essas, sim, tão humanas; nenhum colo consolador que te aceite na simplicidade e honestidade de tua fraqueza. Não, é preciso ser estóico, um Hércules, que execute todas os seus 12 trabalhos repetidamente sem reclamar, ser se abater, sem esmorecer, sem derramar uma única lágrima. Só que ao me olhar no espelho não vejo nenhum herói - só um ser humano fraco e triste diante de um mundo de pressões inexoráveis.
E que ainda dá graças a Deus por isso.
(uma coisa incompleta e triste que pediu para sair ontem, depois de ouvir comentários sobre a pequenez humana no ambiente de trabalho; às vezes é preciso deixar sair esses sentimentos espúrios para que o otimismo não se perca de todo no mar da hostilidade convivial)
27 de mar. de 2011
A materialização da ausência
Eu comecei a escrever este post algum tempo atrás e não consegui terminá-lo. Mas achei por bem publicá-lo assim mesmo, inacabado. Talvez eu o complete depois, mas não é nada certo.
No dia 5 de novembro de 2010 minha mãe faleceu. Não resistiu a um AVC hemorrágico (o segundo em 10 anos) depois de ficar internada na UTI por cinco dias. Cinco dias em que minha vida foi subitamente suspensa e em que permanci ‘planando’ sobre acontecimentos e decisões que não pareciam estar sendo vivenciados e tomadas por mim.
No dia 5 de novembro de 2010 minha mãe faleceu. Não resistiu a um AVC hemorrágico (o segundo em 10 anos) depois de ficar internada na UTI por cinco dias. Cinco dias em que minha vida foi subitamente suspensa e em que permanci ‘planando’ sobre acontecimentos e decisões que não pareciam estar sendo vivenciados e tomadas por mim.
Há algo de absoluto na morte que, por mais que saibamos de ‘ouvirmos dos outros’, só se concretiza quando acontece conosco. Algo muda em nossa percepção do mundo, das coisas – concretas e abstratas – que nos rodeiam e permeiam. Para mim, talvez o mais impressionate tenha sido a materialização da ausência. Explico: durante todo o processo, da internação à remoção do corpo e seu estabelecimento na capela do cemitério, havia a materialidade do corpo físico. No hospital minha mãe estava inconsciente, como a encontrei e como permaneceu até depois de ter sido tirada a sedação. No velório havia seu rosto concreto, suas mãos cuidadosamente colocadas sobre o peito, seu sono final coberto de flores brancas, seu corpo vestido com a roupa que eu mesmo escolhera em seu guarda-roupas – tudo visível e palpável. Até o momento em que, privado dessa possibilidade de contemplação pela tampa do caixão, sua imagem real começou a evanescer e sua materialidade finalmente começou a se desfazer. Quando, depois de baixado à sepultura, colocam as lajes que sustentarão a terra e a grama, compreendi que não haveria mais o que ver daquela presença: sua ausência se materializou. Nunca a ausência tornou-se tão significativamente concreta como naquele instante. E nunca sua concretude foi tão dolorosa quanto no momento em que, de volta à casa, enfiei a chave na fechadura para contemplá-la. Foi nesse momento – só nesse momento – que todas as emoções que eu até então conseguira guardar para preservar os familiares que visivelmente estavam muito abalados com a morte de minha mãe, finalmente extravasaram. O abraço vazio e silencioso da ausência liberaram o que eu havia represado até ali. Foi um choro de constatação da inevitabilidade, do irreversível, do que é quase incompreensível. E passou. Como um surto. E veio-me a calma – a mesma que me acompanhara durante todo o processo e que só ali eu começaria a compreender…
14 de jan. de 2011
Quebra-cabeças
Você seria capaz de ser amigo de alguém que é irritadiço, mal-humorado, reclamão, impaciente, um verdadeiro chato? Pois é, eu também não. O mais engraçado é que eu tenho amigos. Que gostam de mim apesar de eu me encaixar perfeitamente no perfil acima. É algo que foge completamente à minha compreensão. Mas passei do ponto de tentar entender. Hoje só aceito. Não faz sentido questionar as graças que a vida concede.
Meus amigos são meu oxigênio. Sem eles minha vida seria miserável e eu certamente seria muito mais ranzinza e rabugento do que já sou e, perto dos 50 anos, já estaria em uma clínica de repouso atormentando enfermeiros. Entretanto, cada vez que a vida resolve bater mais forte, o alívio vem sempre de um abraço amigo, tanto físico quanto emocional. Amigos ajudam a gente a não adoecer emocionalmente. São presentes. Aguentam nossas idiossincrasias mas conservam a saudável capacidade de nos mandar à merda ao menor sinal de que estamos ultrapassando os limites. A verdade que sai da boca de um amigo pode doer, e muito, mas sempre carrega em si a dose necessária de "semancol" que tanto necessitamos aqui e ali.
Não à toa dizem que os amigos são a família que escolhemos. Penso que eles nos deixam escolhê-los por ter nos escolhido antes. Não conquistamos os amigos; somos conquistados por eles.
Alguns ficam em nossa vida para sempre. Outros fazem parte dela por um tempo e depois se retiram, porque cumpriram seu papel e precisam seguir em frente confortando outros corações. Amo os dois tipos. Porque ambos sempre ensinam mais do que imaginamos ser capazes de aprender. Algumas amizades ficam "dormentes" por longos períodos, despertando apenas para nos socorrer de algum perigo iminente que nem imaginávamos estivesse para ocorrer - são como o Rei Artur que, diz a lenda, ressurgirá no momento em que a Inglaterra mais precisar de seu herói. Só que nossos amigos não são mitos. São reais e palpáveis. E nos ensinam sobre diferenças, diversidade, alegria, desapego, tristeza, respeito, afetos...
Descobri, com o passar do tempo, que meu coração não é um órgão inteiro, completo: é um quebra-cabeças. Cada amigo que me conquista é uma peça que se encaixa. Disse isso a duas amigas recentemente. Agora torno isso público. Obrigado a cada um dos meus amigos por tornarem meu coração mais completo.
Meus amigos são meu oxigênio. Sem eles minha vida seria miserável e eu certamente seria muito mais ranzinza e rabugento do que já sou e, perto dos 50 anos, já estaria em uma clínica de repouso atormentando enfermeiros. Entretanto, cada vez que a vida resolve bater mais forte, o alívio vem sempre de um abraço amigo, tanto físico quanto emocional. Amigos ajudam a gente a não adoecer emocionalmente. São presentes. Aguentam nossas idiossincrasias mas conservam a saudável capacidade de nos mandar à merda ao menor sinal de que estamos ultrapassando os limites. A verdade que sai da boca de um amigo pode doer, e muito, mas sempre carrega em si a dose necessária de "semancol" que tanto necessitamos aqui e ali.
Não à toa dizem que os amigos são a família que escolhemos. Penso que eles nos deixam escolhê-los por ter nos escolhido antes. Não conquistamos os amigos; somos conquistados por eles.
Alguns ficam em nossa vida para sempre. Outros fazem parte dela por um tempo e depois se retiram, porque cumpriram seu papel e precisam seguir em frente confortando outros corações. Amo os dois tipos. Porque ambos sempre ensinam mais do que imaginamos ser capazes de aprender. Algumas amizades ficam "dormentes" por longos períodos, despertando apenas para nos socorrer de algum perigo iminente que nem imaginávamos estivesse para ocorrer - são como o Rei Artur que, diz a lenda, ressurgirá no momento em que a Inglaterra mais precisar de seu herói. Só que nossos amigos não são mitos. São reais e palpáveis. E nos ensinam sobre diferenças, diversidade, alegria, desapego, tristeza, respeito, afetos...
Descobri, com o passar do tempo, que meu coração não é um órgão inteiro, completo: é um quebra-cabeças. Cada amigo que me conquista é uma peça que se encaixa. Disse isso a duas amigas recentemente. Agora torno isso público. Obrigado a cada um dos meus amigos por tornarem meu coração mais completo.
10 de jan. de 2011
Biografia de um presidente - ou mais um comentário impertinente...
Ontem (domingo), passando pela vitrine de importante livraria de São Paulo, dei de cara com uma biografia dita "impecável" no cartaz de divulgação, do presidente americano, Barack Obama. Há pilhas e pilhas do livro na vitrine e me pergunto se conseguirão desovar tal quantidade dessa preciosidade...
Não duvido que o homem Obama tenha qualidades inegáveis que mereçam atenção e respeito. Afinal, numa sociedade ainda extremamente racista apesar de sua pretensa dedicação à democracia, ver a trajetória de um homem afro-americano do anonimato à presidência da mais imperialista das nações constitui fato inédito e digno de nota.
Entretanto, como político o presidente americano ainda não disse ao que veio. Depois de não conseguir implantar as várias medidas que havia prometido em campanha e de haver se comprometido, ainda que por manobras dos adversários, com ideias e ideais que estavam na contramão de sua visão política, fica difícil agregar à imagem do ser humano e cidadão a condição de bom político. Já havia sido precipitada (e extremamente oportunista) a concessão a ele, no início do mandato, de um Nobel da Paz - que se provou ainda mais equivocado e constrangedor com o passar do tempo. Agora surge uma biografia "impecável" de um homem que ainda não terminou de cumprir seu ciclo histórico-político.
Foi precipitação da editora? Não creio - é uma daquelas que publicam coisas interessantes e que mantêm qualidade editorial acurada. Seria, então, uma jogada de marketing para atrair um certo nicho de consumidores que se encontram "alinhados" com a nova (velha) direita linha-dura e que se concentra numa certa faixa (restritíssima) da população paulistana. Se for, creio que superestimaram as vendas: o volume em questão deve ficar encalhado na vitrine ou brevemente será econtrada por um terço do preço de loja em sebos do país, provavelmente junto de velhos livros de política ultrapassados e cuja única função é acumular poeira em prateleiras rente ao chão, onde ninguém se agacha para ver...
Problema de timing da biografia, e da editora brasileira que a lançou no mercado nacional...
Não duvido que o homem Obama tenha qualidades inegáveis que mereçam atenção e respeito. Afinal, numa sociedade ainda extremamente racista apesar de sua pretensa dedicação à democracia, ver a trajetória de um homem afro-americano do anonimato à presidência da mais imperialista das nações constitui fato inédito e digno de nota.
Entretanto, como político o presidente americano ainda não disse ao que veio. Depois de não conseguir implantar as várias medidas que havia prometido em campanha e de haver se comprometido, ainda que por manobras dos adversários, com ideias e ideais que estavam na contramão de sua visão política, fica difícil agregar à imagem do ser humano e cidadão a condição de bom político. Já havia sido precipitada (e extremamente oportunista) a concessão a ele, no início do mandato, de um Nobel da Paz - que se provou ainda mais equivocado e constrangedor com o passar do tempo. Agora surge uma biografia "impecável" de um homem que ainda não terminou de cumprir seu ciclo histórico-político.
Foi precipitação da editora? Não creio - é uma daquelas que publicam coisas interessantes e que mantêm qualidade editorial acurada. Seria, então, uma jogada de marketing para atrair um certo nicho de consumidores que se encontram "alinhados" com a nova (velha) direita linha-dura e que se concentra numa certa faixa (restritíssima) da população paulistana. Se for, creio que superestimaram as vendas: o volume em questão deve ficar encalhado na vitrine ou brevemente será econtrada por um terço do preço de loja em sebos do país, provavelmente junto de velhos livros de política ultrapassados e cuja única função é acumular poeira em prateleiras rente ao chão, onde ninguém se agacha para ver...
Problema de timing da biografia, e da editora brasileira que a lançou no mercado nacional...
20 de dez. de 2010
Experiências foto-gastronômicas
Minha máquina fotográfica tem um recurso interessante: ajuste para fotos "gourmet", que promete avivar as cores e tornar um prato fotografado mais apetitoso. Bem, aqui vão algumas das minhas peripécias deste fim de semana:
Um informação sobre a torta de Amaretti. Amaretti são biscoitos de amêndoas italianos, bem duros. Na receita original, eles são triturados e amaciados em licor Sassolino, que é um licor de anis e especiarias, mas muito pouco doce. Tive que fazer adaptações: Achei Amarettini d'Italia, que são mini-Amaretti, firmes, mas fáceis de esfarelar; e o licor teve que ser um de anis comum, mesmo, da Stock. Conclusão: ficou tudo muito doce, porque o biscoito é doce, o licor é muito doce e a receita pede 250g de açúcar. Da próxima vez, usarei menos açúcar. Ou espero Loverci voltar ao Brasil no ano que vem e me trazer uma garrafa de Sassolino e alguns Amaretti.
Ravioli de mussarela de búfala com molho de tomates
Massa fresca
Torta de Amaretti (receita italiana, que minha afilhada de
casamento Loverci me deu)
Um informação sobre a torta de Amaretti. Amaretti são biscoitos de amêndoas italianos, bem duros. Na receita original, eles são triturados e amaciados em licor Sassolino, que é um licor de anis e especiarias, mas muito pouco doce. Tive que fazer adaptações: Achei Amarettini d'Italia, que são mini-Amaretti, firmes, mas fáceis de esfarelar; e o licor teve que ser um de anis comum, mesmo, da Stock. Conclusão: ficou tudo muito doce, porque o biscoito é doce, o licor é muito doce e a receita pede 250g de açúcar. Da próxima vez, usarei menos açúcar. Ou espero Loverci voltar ao Brasil no ano que vem e me trazer uma garrafa de Sassolino e alguns Amaretti.
Pão integral com 3 farinhas (trigo branca, trigo integral
e de centeio)
Loverci e eu
8 de set. de 2010
Dublin, last day
O dia amanheceu estranho... um pouco nublado, sem grandes promessas. Fui andar em Temple Bar e me deixei perder pelas ruazinhas. Há várias coisas bacanas em Dublin, que pode parecer provinciana, antiga, moderna e descolada. Como Crown Alley. Uma alameda de lojas alternativas, roupas "vintage", grafites, e um pub tradicional, o 3 Crown Alley. Lembrei-me bastante de Desirée. Esta rua se parece com ela. Aliás, Dublin tem muito de Desirée, em suas ladeiras baixas, seus bares regados a Guinness e gente interessante.
Crown Alley - a rua alternativa
3 Crown Alley - vale a visita e o almoço (com Guinness!)
Angus beef with chips and garlic butter
Não dava para ir embora sem experimentar...
fortíssima! encorpada! a cara de Dublin!
Vista do bar do Crown Alley
Tire suas próprias conclusões...
V for Vintage
E o céu de Dublin...
Depois de Temple Bar, fui passear na margem sul do rio Liffey, em direção ao Phoenix Park. Não cheguei a entrar no parque porque um jantar me esperava ao norte de Dublin, em Malahide. Mas foi bem gostoso andar por ali. O tempo ora clareava, ora escurecia - e o céu ia se transformando com os humores do tempo.
É ou não uma pintura?
Em direção ao centro...
E em direção ao Phoenix Park.
Fachada decorada com alto-relevo colorido.
Aproveitando o calor da tarde...
26 de ago. de 2010
Diário de viagem - um pouco de reflexão antes do fim...
Parece, enfim, que as férias estão acabando. Apesar da saudade, devo confessar que não queria voltar. Principalmente depois de ter visto Dublin... Vai ser muito difícil voltar para a realidade depois de ter visto tanta beleza. Mais do que em Londres, eu moraria facilmente em Dublin.
Bem, não sei se já é hora de fazer um balanço, mas posso dizer sem medo de errar que foram as melhores férias da minha vida. Nunca imaginei que conseguiria fazer tanto. Mas fiz. E tenho como provar a mim mesmo. É uma sensação muito boa, pois é a primeira vez que cumpri uma "resolução de ano novo". Eu prometi a mim mesmo, no fim do ano passado, que este ano eu viria para Londres, de qualquer jeito. No fim, foi muito mais. Estou feliz, e muito orgulhoso de mim mesmo.
Quando eu estava olhando o mar da Irlanda, em Dalkey, dois dias atrás, tive uma crise de choro, algo muito forte aconteceu: larguei os grilhões - pela primeira vez na vida me senti livre, livre como nunca sonhei ser possível. E pude finalmente dizer a mim mesmo: eu mereço. Pode parecer ingênuo, mas fez uma grande diferença para mim, jogar fora tantos anos de condicionamento "negativo", achando que eu não merecia conquistar vitórias, por menores que elas fossem. Pela primeira vez o mundo ficou do tamanho certo,nem menor nem maior do que eu pensava. O mundo é real.
Nessas férias encontrei pessoas de diferentes nacionalidades, diferentes culturas, mesmo quando eram do mesmo país, e em cada uma pude perceber um ponto de contato, um traço de humanidade que nos proporciona a dimensão exata da igualdade. Todos temos nossas idiossincrasias, nossos medos, nossas angústias, algumas muito particulares e individuais, e outras mais "universais". Existem pessoas apaixonadas e apaixonantes em todos os lugares. Com cada uma delas aprendi um pouco mais sobre mim mesmo.
Cada pessoa que encontrei e com quem conversei fez alguma diferença em minha vida: as colegas de curso da Espanha, do Japão, da China; os professores ingleses; o português que gerencia a cantina universitária e seu funcionário espanhol; a eslovena da Le Pain Quotidien de Tottenham Ct Rd, a pós-adolescente irlandesa que me confirmou que confirmou que eu estava na plataforma certa para pegar o trem para Dalkey e com quem conversei durante todo o trajeto; o senhor na praia de Killiney que me falou sobre Paulo Freire, distribuição de riquezas e desigualdade social na Irlanda; o jardineiro de um serviço social ao lado da St Pancras Station, que atua em um projeto do governo para pessoas com diferentes graus de problemas mentais (ele foi aposentado prematuramente da Marks and Spencer devido à depressão provocada pelo assédio moral de uma gerente - depois de 20 anos de trabalho); o atendente de olhos azuis e voz de baixo profundo da Royal Watercolour Society, que me falou de sua experiência no aprendizado da língua alemã; Thibault, o francês da Córsega, dono do bed & breakfast em South Ealing, onde estou passando as últimas horas de minha estada em Londres.
Cada uma dessas e tantas outras pessoas com quem cruzei por aqui fez a mágica de transformar profundamente, e imperceptivelmente, a minha vida. Pois tudo poderia ter sido (e certamente teria sido) completamente diferente se eu não os tivesse conhecido.
Pode ser que tudo que eu esteja falando aqui seja uma grande bobagem, mas faz sentido, muito sentido, para mim. Não sei se poderei fazer uma viagem como essa de novo (mas vou trabalhar bastante para conseguir), mas se não der, estou feliz. Olhando para trás, para a escola municipal onde cursei a quarta série em Santa Margarida, bairro esquecido do remoto distrito de Campo Grande - Rio de Janeiro -, vejo que havia todas as condições para que a minha trajetória fosse totalmente diferente. Mas cheguei mais longe do que jamais aquele garoto de 11 anos sonhara chegar quando terminou a quarta série do primário.
Só uma coisa não mudou: a capacidade de maravilhar-se com a vida. Espero continuar enxergando as coisas com os olhos daquele menino, porque ele me ensinou coisas muito interessantes sobre mim e o mundo.
O diário vai continuar depois, com mais fotos de Dublin, mas muito poucas de Londres, pois, como disse, o verão acabou: a chuva veio para ficar, embora sem muito frio. E estou fazendo o possível para espremer minha bagagem em duas malas... mas já tive que comprar outra mochila...
Bem, não sei se já é hora de fazer um balanço, mas posso dizer sem medo de errar que foram as melhores férias da minha vida. Nunca imaginei que conseguiria fazer tanto. Mas fiz. E tenho como provar a mim mesmo. É uma sensação muito boa, pois é a primeira vez que cumpri uma "resolução de ano novo". Eu prometi a mim mesmo, no fim do ano passado, que este ano eu viria para Londres, de qualquer jeito. No fim, foi muito mais. Estou feliz, e muito orgulhoso de mim mesmo.
Quando eu estava olhando o mar da Irlanda, em Dalkey, dois dias atrás, tive uma crise de choro, algo muito forte aconteceu: larguei os grilhões - pela primeira vez na vida me senti livre, livre como nunca sonhei ser possível. E pude finalmente dizer a mim mesmo: eu mereço. Pode parecer ingênuo, mas fez uma grande diferença para mim, jogar fora tantos anos de condicionamento "negativo", achando que eu não merecia conquistar vitórias, por menores que elas fossem. Pela primeira vez o mundo ficou do tamanho certo,nem menor nem maior do que eu pensava. O mundo é real.
Nessas férias encontrei pessoas de diferentes nacionalidades, diferentes culturas, mesmo quando eram do mesmo país, e em cada uma pude perceber um ponto de contato, um traço de humanidade que nos proporciona a dimensão exata da igualdade. Todos temos nossas idiossincrasias, nossos medos, nossas angústias, algumas muito particulares e individuais, e outras mais "universais". Existem pessoas apaixonadas e apaixonantes em todos os lugares. Com cada uma delas aprendi um pouco mais sobre mim mesmo.
Cada pessoa que encontrei e com quem conversei fez alguma diferença em minha vida: as colegas de curso da Espanha, do Japão, da China; os professores ingleses; o português que gerencia a cantina universitária e seu funcionário espanhol; a eslovena da Le Pain Quotidien de Tottenham Ct Rd, a pós-adolescente irlandesa que me confirmou que confirmou que eu estava na plataforma certa para pegar o trem para Dalkey e com quem conversei durante todo o trajeto; o senhor na praia de Killiney que me falou sobre Paulo Freire, distribuição de riquezas e desigualdade social na Irlanda; o jardineiro de um serviço social ao lado da St Pancras Station, que atua em um projeto do governo para pessoas com diferentes graus de problemas mentais (ele foi aposentado prematuramente da Marks and Spencer devido à depressão provocada pelo assédio moral de uma gerente - depois de 20 anos de trabalho); o atendente de olhos azuis e voz de baixo profundo da Royal Watercolour Society, que me falou de sua experiência no aprendizado da língua alemã; Thibault, o francês da Córsega, dono do bed & breakfast em South Ealing, onde estou passando as últimas horas de minha estada em Londres.
Cada uma dessas e tantas outras pessoas com quem cruzei por aqui fez a mágica de transformar profundamente, e imperceptivelmente, a minha vida. Pois tudo poderia ter sido (e certamente teria sido) completamente diferente se eu não os tivesse conhecido.
Pode ser que tudo que eu esteja falando aqui seja uma grande bobagem, mas faz sentido, muito sentido, para mim. Não sei se poderei fazer uma viagem como essa de novo (mas vou trabalhar bastante para conseguir), mas se não der, estou feliz. Olhando para trás, para a escola municipal onde cursei a quarta série em Santa Margarida, bairro esquecido do remoto distrito de Campo Grande - Rio de Janeiro -, vejo que havia todas as condições para que a minha trajetória fosse totalmente diferente. Mas cheguei mais longe do que jamais aquele garoto de 11 anos sonhara chegar quando terminou a quarta série do primário.
Só uma coisa não mudou: a capacidade de maravilhar-se com a vida. Espero continuar enxergando as coisas com os olhos daquele menino, porque ele me ensinou coisas muito interessantes sobre mim e o mundo.
O diário vai continuar depois, com mais fotos de Dublin, mas muito poucas de Londres, pois, como disse, o verão acabou: a chuva veio para ficar, embora sem muito frio. E estou fazendo o possível para espremer minha bagagem em duas malas... mas já tive que comprar outra mochila...
Assinar:
Postagens (Atom)
