16 de mai. de 2009

Ela viu e disse que gostou

Minha amiga Sandrinha (Sandrix), viu seu poema postado aqui. Ela disse que gostou do texto que eu escrevi. Era para ela rir, mas ela chorou (acho que de alegria). Um doce. E deixou o texto. Ainda bem!

12 de mai. de 2009

Um pouco a cada dia

Não é nada fácil. Dizem que é como praticar exercícios ou tocar um instrumento: só se melhora com a persistência, com o trabalho diário, árduo, às vezes sem imaginação e com resultados pífios, mas não se deve desistir. Em algum momento o esforço deverá se mostrar útil e algo proveitoso deve acabar surgindo de tanto "suor e lágrimas".

Bem, aqui estou eu, no meu exercício: escrever. Ainda que sejam poucas linhas e que seu conteúdo nem seja algo relevante. Mas é preciso. É preciso principalmente agora que, um pouco no susto, descubro que aquelas mazelas da vida moderna começaram a se aproximar: o tal do estresse, a tensão diária e... o colesterol alto, a hipertensão, a indisposição e o cansaço. Não achei que chegariam tão cedo (não achei nem que chegariam! doce ilusão...). Dieta, exames, 'check-ups'. Meu projeto de viver cem anos começa a ser seriamente ameaçado... Não bastava o rim matemático nem as manchas de pele - não isso tava fácil. Tinha que mexer com as vontades mais traiçoeiras: as da comida, as da preguiça. Porque de uma tacada só tenho que fechar a boca e mexer o corpo! Que maçada!

E eu pensando que seguiria os passos de Dª Maria do Sacramento Brandão Ramos, minha doce vó, que viveu 103 anos. 103!!! Bah, que nada. Agora é "você precisa fazer exercícios"; "mas Dr, não tenho tempo! a que horas vou fazer isso? de meia-noite às seis? um homem de bem precisa dormir!". "Encaixa", diz ele sem tirar os olhos dos pedidos de exame que freneticamente escreve, um após o outro. Encaixa como, criatura? Acordar mais cedo? Ai, meu Deus! Macunaimicamente: "Ai que preguiça!". Mas acho que não vai ter muita saída: levantar mais cedo para pelo menos 30 minutos de caminhada pela Sumaré, fazer o quê. Pelo menos é de graça. Sim, porque as academias por aqui andam com os preços que provocam uma suadeira no bolso que só.

Acho que dá para viver sem um salzinho. Mas sem a manteiga e o queijo, ai, aí fica mais difícil. "Diminui", diz meu carrasco/salvador vestido de jaleco branco (franzo a testa, cerro os olhos e miro bem para ver se não tem nenhum sinalzinho de sarcasmo na fuça desse destemido - não tem, para sorte dele). Dá para por adoçante no café, mas dá para viver sem batata? Frita (sumo pecado), cozida, purê, sauté, com carne assada, na salada, "baked" com pasta de frango e requeijão, com maionese (light, claro!). Martírio. Mas, em nome do coração, faz-se o sacrifício. Até o sorvete agora é "dáiete". De iogurte. Ah, não, a calda de frutas vermelhas não conta, né. Covardia, tirar: fica tão bonitinha em cima da bola de sorvete. E é só de vez em quando ("tipo assim" toda semana).

Sim, em nome do coração, vale o sacrifício. Afinal, ainda quero ir a Londres por 15 dias (pelo menos), conhecer as Shetland, visitar minha afilhada de casamento em Reggio Emilia, dar um pulinho em Veneza antes que (ela) afunde de vez, conhecer o novo apartamento de meu amigo francês em Rennes, perambular pelas ruas de Paris, conhecer a vinícola perto de onde meu amigo brasileiro mora em Mâcon, e ainda fazer umas paradas estratégicas nos amigos em Munique e Colônia, e em Madri - ah, já estava esquecendo de Gaudí, em Barcelona! Tem que ter saúde para isso (o dinheiro também, mas essa é outra história).

Se não der para fazer isso tudo (que não precisa ser de uma vez - a não ser, é claro, que eu ganhe na mega-sena, hehe), quero pelo menos passar meus quinze dias em Londres e andar bastante a pé, visitar as várias livrarias que assinalei no meu guia "Booklover's London" e, se der, ainda dar outra canja cantando bossa-nova em um pub nas Docklands (sim, isso já aconteceu uma vez, mas também é uma outra história).

Se mesmo isso não der, quero me formar, quero aprender a escrever, quero continuar cantando até secar a garganta, quero continuar fazendo trabalho voluntário, quero cuidar de um jardim, quero reunir os amigos para uma (ou várias) taça(s) de vinho e um bom papo. Quero voltar a dar aulas. Quero dividir com os outros a alegria de aprender uma língua estrangeira e, com ela, abrir janelas para paisagens que poucas vezes teríamos chance de ver.

Por isso, diminuir o sal, o açúcar, a carne, e até a noite de sono vale. Como escrever, viver é assim: um pouco a cada dia.

Sandrinha, Sandrix

Sandrinha, Sandrix
Quando nos reencontramos pela primeira vez, muitos anos atrás, ela ouviu minha voz e eu a sua.
Nos reconhecemos. Estava claro: amigos desde sempre, como poucos outros o são. Naquele tempo ela não escrevia, mas lia, bastante. Cantava muito, tocava violão e ouvíamos, horas sem fim, os discos de que tanto gostávamos. Ela os tinha, eu os usufruia. E assim passávamos as horas, conversando sobre tudo e ouvindo música. MPB, só MPB (éramos radicais). Só Elis, Tom, Gal, Bethania, Chico, Caetano, um pouco de Djavan... aprendemos muitas músicas nessa época. Eu escrevia, lia para ela e ela ouvia. Ainda jovem e, como eu, ainda não burilada no gosto, gostava do que ouvia.

Agora, Sadrinha, Sandrix, cresceu. Não por fora, que ela continua pequena, mas por dentro. Virou uma gente de coração assim maior do que o peito, às vezes acho até que maior do que a vida. Inteligente, sagaz, de olhos apertados quando lê, de voz pequena mas doce que quando canta (perdoem a rima pobre) me encanta. Ela me surpreende quase sempre - coisa que muita gente não consegue mais. Ela o faz, e sempre desse jeito bom, desse jeito amigo que quando desata o nó do peito mostra uma luz sempre variada, que lava e limpa a tristeza do rosto da gente.

Sandrinha, Sandrix, cresceu. E escreve. "Que nem gente grande" (risos). Este é o poema que ela escreveu a propósito... bem, vocês verão:

A Garrafa Pet
08/05/2009

No sinal fechando
Desacelerei meu bom carro
Meu som alto
Meu bom mundo

No sinal fechado
Ele vinha contente
Sorrindo bem distante
No mundo bom dele

O menino contagiou-me
Sorri junto e fiquei feliz
Debaixo da linha do metrô
No bairro de Santana

Um menino de farol
E seu carro imaginário
Num instante inesperado
Dei-me conta do que via

Ele mesmo não sabia
Que o brinquedo em que ele estava
Não passava de uma rasa e
Bem amassada garrafa pet

Sem roda
Sem banco
Sem som
E sem direção

Seu sonho o conduzia
Nesta triste alegria
E o menino continuou
No seu carro bom

by Sandra Regina Rosado

Ela (ainda) não sabe que eu pus esse poema aqui. Espero que quando descobrir, não se zangue. É que ela é tímida com seus textos. Mas se ela quiser, tiro. Só não tiro minha declaração de amor, porque isso é meu e meu.

A última pergunta

sempre será a primeira.
será?
"dados insuficientes para uma resposta significativa"
mas uma leitura de The Last Question, de Isaac Asimov, pode ajudar a pensar.
se você (ainda) não lê em inglês, leia aqui A Última Pergunta.

11 de mai. de 2009

O prazer de receber o livro


Foram dias de espera e ansiedade. Por causa de uma aula sobre o Modernismo (e mais ainda, devido ao entusiasmo com que minha professora de Literatura Brasileira apresenta o tema, o livro e o autor), comprei, pela Estante Virtual, a edição crítica de "Macunaíma - o herói sem nenhum caráter", de Mário de Andrade, organizada por Telê Porto Ancona Lopez (1978, edição da Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo).


Hoje, finalmente, o livro chegou. Um aparte, antes de continuar, para fazer um comentário sobre o sítio da Estante Virtual: por três vezes ele me proporcionou belos encontros com obras que há muito eu vinha procurando e não encontrava: a primeira com um livro de Mattoso Câmara ("Para o estudo da fonêmica portuguesa" - Padrão Livraria Editora, 1977), a segunda com um de Waldemar Ferreita Netto ("Introdução à fonologia da língua portuguesa" - Hedra, 2001) e agora esta edição crítica de "Macunaíma" que, segundo consta, está há muito esgotada. Um serviço inteligente, rápido e seguro em todas as vezes que dele precisei, além de ter me dado a oportunidade de conhecer pessoalmente algumas livrarias muito interessantes do centro velho do Rio de Janeiro. O criador do sítio está de parabéns e eu recomendo a visita (não, não estou ganhando nenhuma percentagem de desconto para fazer propaganda, mas acho que precisamos aplaudir iniciativas que dão certo e proporcionam serviços de qualidade; é mais útil do que ficar simplesmente resmungando e reclamando daquilo que não funciona - para isso existem os Procons e outros órgãos sérios).


Mas, voltando ao livro. O prazer de recebê-lo quase se igualou ao da leitura, que refiz para o percurso proporcionado pela professora. O que antes me parecera um texto desconexo, um catálogo de termos folclóricos recolhidos por Mário de Andrade de repente passou a fazer muito sentido e se tornou uma deliciosa leitura, uma leitura de descoberta: da arte de seu autor, de suas angústias, de seus anseios, de sua crítica e arguta visão do movimento que ajudou a criar. Macunaíma, o livro, virou um percurso de prazer e de observação de um tempo e de um desejo ideológico que não se cumpriu.


Quando o pacote chegou, embrulhado em papel pardo, com o endereço escrito a mão, a estampa do Correio, o mundo se apagou por alguns minutos. Havia um prazer antecipado, como o do explorador que saber que atrás da parede ou debaixo daquele solo encontra-se um grande tesouro. Tenho paixão pelo objeto livro. Sua forma, sua capa, suas possibilidades de comunicação antes mesmo de ser aberto. Gosto das lombadas, das orelhas, das jaquetas (quando as têm). Gosto de pensar que, fechado, é um bloco de papel, quase um objeto qualquer, algo que poderia passar despercebido pelos nossos sentidos, mas que aberto funciona como um gatilho para a imaginação, um pista de decolagem para os vôos do pensamento. Por isso esse antegozo diante desse objeto fechado.


Não sabia como era a capa do livro, nem em que estado ele de fato estava (a descrição da livraria cadastrada no Estante não dava muitas pistas, embora dissesse que ele estava amarelado e com marcas de uso). Aberto o pacote - não sem antes provocar minha colega de trabalho, que também faz Letras, mas em outra faculdade, exibindo puerilmente orgulhoso o embrulho pardo - fiquei alguns minutos olhando a capa, pesando o livro em uma mão, na outra, nas duas. Abri-o, com cuidado. Está quase soltando na lombada a capa, pelo que precisarei contar com o auxílio luxuoso de minha amiga Luisa, aprendiz de restauradora de livros, ou até mesmo de minha outra amiga, Daisy, que fez para mim uma belíssima encadernação em um livro de contos do Tosltoi, embora tenha levado quase quatro anos para me entregar o volume pronto. Pensando bem, pelo menos por enquanto, melhor não. Melhor cuidar dele aqui mesmo, lê-lo (para o trabalho da faculdade, claro) e só então entregá-lo ao meticuloso cuidado de minha amiga que, apesar do nome, é uma japonesa de fala mansa e excelente conhecedora de seu ofício (é livreira das boas).


Depois de folheá-lo um pouco, fechei-o e guardei-o com carinho na mochila. Infelizmente não poderia começar a explorá-lo alí, no escritório, embora o trabalho de hoje bem merecesse ser ignorado em favor do prazer da leitura. Mas cheguei em casa, gazeteando uma chatíssima aula de sintaxe do português (gramática gerativa - para aqueles que juram que entendem o que o Chomsky fala), para poder contar dessa aquisição. Depois, se tudo der certo, inclusive meu trabalho de faculdade, conto o resultado da leitura.


Abraços,

F.
Ilustração: página XXXI da introdução da edição crítica, que reproduz a capa anotada por Mário de Andrade.

3 de mai. de 2009

Nota de Falecimento

Faleceu no último dia 08/03, às 15h35, Vassily Kandinsky, amado pinguim de geladeira residente à Rua B. nº ..., vítima de queda súbita da mesa da cozinha motivada pela pressa do dono da casa em aquecer seu almoço no forno de microondas sobre a geladeira.

Os despojos sairão da residência nesta sexta-feira, 13/03, no horário de coleta do caminhão da prefeitura.

A família, pesarosa, despediu-se definitivamente de seu amigo nesta manhã. Foram 18 anos de harmoniosa convivência e seu espaço sobre a geladeira será sempre preservado pela memória de sua presença.

13/03/2009

1 de mai. de 2009

Quase encontros

“A vida é a arte do encontro
embora haja tanto desencontro nessa vida”
(Vinícius de Morais)

Quando pensamos na rapidez com que relações sociais se desfazem antes mesmo de serem estabelecidas, constatamos que estamos, aos poucos, perdendo contato com o outro, o qual, ao deixar de ser referencial para nossas próprias contradições, nos priva do olhar crítico sobre nós mesmos. Nossa problemática cotidiana será, assim, sempre maior do que a do vizinho e nos será sempre mais difícil “fazer contato” com esse outro ser humano com quem cruzamos nos espaços comuns da vida social. O mundo “moderno”, com suas promessas tecnológicas de conexão global, roubou-nos o olhar direto no rosto do vizinho, do jornaleiro, do entregador de pizzas, da balconista, substituindo-o pela possibilidade de conversarmos com essas mesmas pessoas, mas só que do outro lado do mundo e filtradas pela tecnologia asséptica e fria dos “sites de relacionamento” e “programas de bate-papo”, em que podemos ser quem quisermos, menos nós mesmos, já que é mais fácil alimentar a fantasia de sermos o oposto do que somos em nossa (para nós) vida banal.

Assim, em um mundo de relações cada vez mais virtuais, “protegidas” dos perigos da “vida real” que permeiam nosso urbano cotidiano, erguemos barreiras cada vez maiores no contato com o outro. Perdemos a noção da “arte do encontro”, de que falava Vinícius — numa época em que a internet ainda não nos privara das oportunidades de exercê-la. E, para justificar a distância, passamos a preencher a vida com pequenas fatalidades cotidianas.

A este respeito, a leitura do poema “Encontros”, de Nelson Ascher, suscita algumas reflexões.

Encontros
(Nelson Ascher)

Há gente que eu encontro
na rua e me sorri
(o fósforo, dormindo
ensimesmado dentro

da caixa, sonha incêndios) (5)
e eu lhes sorrio; há gente
que encontro numa loja
e me sorri (a lâmina

da faca que repousa
numa gaveta aguarda (10)
o dedo distraído)
e eu lhes sorrio; há gente

que encontro na garagem
e me sorri (o fio
se aquece na parede (15)
acalentando alguma

faísca) e eu lhes sorrio;
há gente que eu encontro
até no elevador
e me sorri (a carne (20)

que está na geladeira
fermenta aos poucos sua
toxina), eu lhes sorrio
e cada qual de nós,

descendo em seu andar, (25)
ligando o carro (salvo
se acaba de guardá-lo),
fazendo (ou não) as compras

e prosseguindo rua
abaixo ou rua acima, (30)
medita na segunda
lei da termodinâmica.

O poema parece todo construído de forma a poder expressar esse constante e crescente distanciar dos seres e o conseqüente desconforto nas eventuais tentativas de re-aproximação. Senão vejamos:

O ato de sorrir e o de retribuir o sorriso, possibilidade do encontro, são repetidos no correr do poema, mas entre o sorriso do outro e a retribuição do sorriso pelo eu lírico, interpõem-se imagens de fatalidades (o fósforo... a lâmina da faca... o fio...a carne...) que podem ocorrer a qualquer momento.

O espaço em que se esboça cada encontro vai se tornando cada vez menor, mais forçosamente íntimo:
“Há gente que eu encontro na rua /numa loja/na garagem/no elevador e me sorri, e eu lhes sorrio”

Mas a força da “fatalidade” relacionada com cada espaço em que ocorrem os encontros parece se intensificar de forma proporcional à proximidade dos corpos. Quanto mais próximos fisicamente, mais surda parece a ação contrária ao encontro - insuportável proximidade:

“(o fósforo, dormindo ensimesmado dentro da caixa, sonha incêndios)” – fogo na rua
“(a lâmina da faca que repousa numa gaveta aguarda o dedo distraído)” – corte na loja
“(o fio que se aquece na parede acalentando alguma faísca)” –choque na garagem
“(a carne que está na geladeira fermenta aos poucos sua toxina)” – veneno no elevador

Como se, para cada esboço de encontro, entre aquele que primeiro sorri e o poeta, entre o sorriso do primeiro e o sorriso de resposta, houvesse uma barreira extrema, erguida de forma a distanciar violentamente quem enseja a aproximação. Mas erguida por quem? Pelo outro? Pelo eu lírico?

O ato de sorrir pode implicar em necessidade de empatia. Ora, pode ser mais difícil sorrir para alguém, qualquer um, na rua do que numa loja; mais ainda na garagem ou no elevador, onde, diante do rosto vizinho e familiar, o sorriso pode levar ao cumprimento.

Essa cordialidade cotidiana descrita no poema está sob constante tensão, permeada de sentimentos ocultos de aversão, de afastamento, de destruição. Do outro? Do eu lírico? Não parece ser por acaso que o fósforo está “dormindo ensimesmado dentro da caixa”, que a lâmina da faca repousa na gaveta, que o fio se aquece no íntimo da parede e que a carne, encerrada na geladeira, longe dos olhos, fermenta suas toxinas. O incêndio, o corte, o choque e o envenenamento estão lá e podem ser a qualquer momento desencadeados.

A estrutura de quatro versos brancos - brancos de ausência, ausência do eco da rima –, de seis sílabas cada um, “quebra” a leitura do texto; o ritmo cindido pelas interpolações, na sua distribuição pelos versos, empresta-lhes tensão e uma impressão de desconforto, como o desconforto diante do sorriso do estranho. É como se, enquanto o eu lírico descreve as cenas de possíveis encontros, seu pensamento aparecesse estranho, avesso ao ato cordial do outro. O desconforto sentido pelo enunciador nos é transmitido também pelo desconforto que as próprias imagens desses seus “pensamentos” nos causa (a lâmina [...] aguarda o dedo distraído; a carne [...] fermenta [...] sua toxina). Maneira de nos lembrar a todo instante de que aquela situação, aquele encontro, incomoda.

Nas duas últimas estrofes há uma retomada dos espaços de encontro, mas agora como espaços de dispersão: o outro desce em seu andar (elevador), liga (ou guarda) o carro (garagem), faz suas compras (loja) ou prossegue “rua abaixo ou rua acima” (rua). Até mesmo a ordem de enunciação dos espaços que, no decorrer do poema, era do mais amplo para o mais restrito, se altera, indo do mais restrito (elevador) para o mais aberto (rua). O efeito de abertura, escoamento, e por que não de alívio pelo fim da incômoda situação, é acentuado pela seqüência rápida em que aparecem os verbos no gerúndio (cada qual de nós, descendo em seu andar, ligando o carro, [...] fazendo [...] as compras [...], prosseguindo rua abaixo ou rua acima). O encontro acaba, o desconforto se dissipa e cada um “medita na segunda lei da termodinâmica”. Mas poderia meditar sobre qualquer outra coisa, desde que não fosse o recente encontro. Como se o poeta dissesse que cada um segue seu caminho, absorvido pelos próprios pensamentos, que poderiam ser sobre náutica, robótica ou física quântica.

Mas, para além do mero acaso da multidão dos pensamentos, por que exatamente a segunda lei da termodinâmica? Ora, segundo um de seus possíveis enunciados, “o calor não pode fluir livremente de um material mais frio para um material mais quente”. O caminho é, necessariamente, inverso, havendo perda de energia durante o processo. Então, extrapolando um pouco, podemos pensar que essa gente “que encontro na rua e me sorri” pode estar buscando o calor humano do poeta, a recuperação do contato primordial, mas que a transferência não se realiza exatamente porque um é mais frio que os outros.
Há talvez, no poema de Ascher, uma crítica ao isolacionismo cada vez mais dominante nestes tempos modernos, em que as relações se fragmentaram e se “digitalizaram”, pulverizando-se no impalpável mundo tecnológico e frio da virtualidade, enquanto aqui fora, no mundo real, abandona-se cada vez mais a “arte do encontro”.

28 de abr. de 2009

Um poema de que gosto muito

Foto: The Granary - Constable County, Suffolk - UK

'The House by the Side of the Road'
by Sam Walter Foss

There are hermit souls that live withdrawn
In the place of their self-content;
There are souls like stars, that dwell apart,
In a fellowless firmament;
There are pioneer souls that blaze their paths
Where highways never ran—
But let me live by the side of the road
And be a friend to man.

Let me live in a house by the side of the road,
Where the race of men go by—
The men who are good and the men who are bad,
As good and as bad as I.
I would not sit in the scorner’s seat,
Or hurl the cynic’s ban—
Let me live in a house by the side of the road
And be a friend to man.

I see from my house by the side of the road,
By the side of the highway of life,
The men who press with the ardor of hope,
The men who are faint with the strife.
But I turn not away from their smiles nor their tears,
Both parts of an infinite plan—
Let me live in a house by the side of the road
And be a friend to man.

I know there are brook-gladdened meadows ahead
And mountains of wearisome height;
That the road passes on through the long afternoon
And stretches away to the night.
But still I rejoice when the travelers rejoice,
And weep with the strangers that moan,
Nor live in my house by the side of the road
Like a man who dwells alone.

Let me live in my house by the side of the road—
It’s here the race of men go by.
They are good, they are bad, they are weak, they are strong,
Wise, foolish—so am I;
Then why should I sit in the scorner’s seat,
Or hurl the cynic’s ban?
Let me live in a house by the side of the road
And be a friend to man.

Enfim, a coragem

Bem, está feito. Lá, no 'Andarilho do Vento', se encontram todos os textos que escrevi e guardei entre a década de 80 e a de 90. Relendo, dei risada de algumas coisas, outras me emocionaram, não pela qualidade, mas pela sinceridade do tom confessional. Mas, no geral, é de um dramalhão de terceira. Tem alguns poeminhas bons, mas o que prevalece é um derramamento exagerado. OK, OK, estou julgando, o que disse a mim mesmo que não faria. Mas tem alguém perfeito nesse mundo?? Duvido!

Estou contente de ter feito isso. Não creio que eu venha a atualizar aquela página mais. Talvez algumas fotos, imagens, só para dar um pouco de equilíbrio naquele monte de letra junta. Acho que o caminho, agora, está aqui, nesta página. Algo como um novo ponto de partida. Se, eventualmente, eu voltar a tentar poemas, colocarei lá o que surgir. Porém penso que o terreno mais seguro está aqui, uma vez que da apresentação me isentei de responsabilidades mais sérias, até mesmo a de atualizar as páginas.

Os próximos passos ainda não sei. Vamos assim dando tempo ao tempo, deixando que o fluxo se faça naturalmente.

O bom, agora, é ir dormir, porque amanhã, que já é hoje, será um dia longo.

27 de abr. de 2009

OK, fui vencido

OK, fui vencido por esse "admirável novo mundo" das páginas pessoais que pululam na internet. O que vai surgir nesta página ainda é uma incógnita. Como disse no texto de boas vindas, pode ser que ela fique muito tempo sem ser atualizada. Tenho uma preguiça ancestral para a internet. Acho-a divertida e instrutiva às vezes, mas o fato de trabalhar o dia inteiro em frente a um computador faz-me perder qualquer vontade de ligar a máquina em casa. Mas, vamos ver no que dá.

Até que para quem só começou nesse ramo de páginas pessoais no sábado, 24/04/2009, a coisa está rendendo. Quem quiser, visite a página "Andarilho do Vento" (http://www.andarilhodovento.blogspot.com/), onde coloquei textos que escrevi entre as décadas de 80 e 90. É um pouco pretensioso, como são todos os arroubos adolescentes ou pós-adolescentes - como era o caso - mas não deixa de ser curioso. Aquele vai funcionar como uma vitrine dos meu sonhos literários de juventude. Este será um retrato mais real do escritor em que eu não me transformei.

Ah, sim. Ainda estou na fase dos textos todos em primeira pessoa. Acho que demanda muito tempo para se adquirir a experiência de escrever sobre o outro, como o outro, para o outro. Então, de certa forma, estou em sintonia com meu tempo - este em que todos estamos auto-centrados, cientes apenas de nós individualmente, nunca (ou raramente) coletivamente. Claro que a proposta, pelo menos para mim, será tentar vencer aos poucos essa distância que separa o "eu" do "nós" (ou "eu" + os "outros"). Quem sabe? Vai que dá certo...

Em algum momento, se eu conseguir aprender a mexer direito nas configurações desse "troço", pretendo que esta página seja uma criação coletiva, feita com alguns amigos. Assim quem sabe ela possa ficar mais interessante e o princípio do "nós" finalmente se instale. Aguardem.

Bem, o dever chama e eu preciso por o sal na mesa, ainda que seja só para consumo próprio.
Aos que chegaram até aqui, uma ótima semana e obrigado pela visita.