(ainda da série de textos perdidos)
Até um século atrás existiu, na província oriental de Zi Duang, uma aranha que parecia ser de vidro.
Tendo devorado suas presas ela ornaria sua teia com os esqueletos, criando, em semanas, uma urna de despojos.
Sua teia era, também, única, pois tinha muitas camadas, como andares de um edifício.
No alto deste lugar parecido com um palácio, reunidos com aparente cuidado, estavam pequenos e brilhantes objetos; vidros, contas, gotas de orvalho. Alguém quase poderia chamar aquilo de altar. Quando a brisa soprava através desta construção produzia sons lamentosos, chorosos.
Pequenos lamentos, pequenos choros.
Os filhotes da aranha ficavam assustados e procuravam freneticamente por sua mãe. Mas a aranha de vidro havia partido há muito, sabendo que os filhotes sobreviveriam sozinhos de algum modo.
Ah, a aranha de vidro tinha olhos azuis, quase como os de um humano. Eles derramavam lágrimas na invernal virada dos séculos.
(Tradução livre de "Glass Spider", de David Bowie)
Sem data; provavelmente meados da década de 90.
20 de jan. de 2010
Saudades de Elis
(encontrei este texto perdido em minhas coisas - é velho...)
Ouço Elis Regina no rádio, com Adoniran Barbosa, numa gravação antiga, com os dois conversando, rindo muito e, claro, cantando. Eu me emociono toda vez que ouço ou vejo qualquer coisa com Elis. Muitas vezes até às lágrimas. Ainda não consigo entender muito bem esta comoção que me aflige nesses momentos.
Quando Elis morreu, em 1981, eu tinha 16 anos, estudava no SENAI durante o dia e começava o 2º grau à noite. Não fosse pelo fato de eu ser extremamente fechado, já àquela época, eu passaria facilmente como um adolescente comum. Mas me lembro bem daquele dia, quando soube da notícia pela televisão. Chorei muito, como nunca antes havia chorado pela morte de qualquer pessoa. Era quase desespero. Não me conformava e não podia aceitar que ela, justo ela, tivesse morrido. Nem quando meu padrinho morreu, quando eu tinha 14 anos, chorei e me desesperei tanto. Se me perguntarem o porquê eu sinceramente não saberei responder. Posso fazer muitas proposições, algumas só formadas hoje, adulto.
Naquela época eu já ouvia muita música popular brasileira. Eu ouvia muito Bethânia, Caetano, Gal, Chico e Milton. Já não era comum gostar deles na minha idade. Era a década de 80, Abertura, e bandas de rock pipocavam no verão. Assim como meu gosto por livros e quadrinhos, que lia avidamente, meu gosto musical era realmente estranho. E tinha Elis nesse meio. Não sei porque, mas eu adorava quando exibiam na TV os especiais com ela. Eu acho que já sentia que o que ela emanava não era só a voz: era a alma, dela e da música que interpretava, que vinham junto com a voz, me invadindo todo, me emocionando inteiro, uma força arrebatadora e delicada ao mesmo tempo. Acho que é isso que as pessoas traduzem como "intérprete excepcional".
Cada música com Elis era uma parte dela mesma, representando de forma intensa o que ela era. Samba, samba-canção, música de "fossa", bossa nova. Tudo era ela. Eu queria cantar como ela, fazer com a música o que ela fazia: extrair a emoção mais pura de dentro de seus vários sentidos.
Levei anos para ter um disco de Elis. Tenho dois e algumas gravações esparsas. Tudo de Elis para mim é sempre muito novo, mesmo o que já é velho conhecido.
Até hoje choro quando vejo Elis. Brigo com ela, xingo, digo, de maneira irracional e infantil, que ela não tinha o direito de ter-nos deixado quando havia tanto que ela ainda poderia fazer. Ouço músicas, hoje, que são a cara dela, e penso: isso ia ficar lindo na voz dela. Aí vem essa raiva e eu digo "não! niguém deveria ter o direito de partir com tanto talento e emoção para mostrar, tão cedo!". É injusto para conosco, que aprendemos a amar o amor que ela tinha, essa capacidade de entrega, em tudo. Não a conhecia pessoalmente, não assisti nenhum de seus shows, não tiva a possibilidade de vê-la senão na TV. Mas que saudade!
Aos religiosos, aos espiritualistas, aos amigos e parentes dela: não se preocupem. Não quero atrapalhar o descanso de ninguém. Sou egoísta, sim, mas com ela. Porque me lembro de Ella Fitzgerald, velhinha, cantando no aniversário de 70 anos de Frank Sinatra e superando-o em talento, limpeza de voz e swing, e penso no que Elis estaria fazendo hoje e no que ela faria aos 70!
Muitas coisas maravilhosas, com certeza. Tão boas quanto este momento com o reverenciável Adoniran, que comento depois. Hoje é para Elis, que mais uma vez me emociona às lágrimas, alegre por saber que ela existiu e permanece. "Como um estrela".
27/02/1995
12h12
Em tempo: hoje tenho quase todos os discos da Elis que foram lançados em CD e também os DVDs; e ela ainda me emociona. Demais.
Ouço Elis Regina no rádio, com Adoniran Barbosa, numa gravação antiga, com os dois conversando, rindo muito e, claro, cantando. Eu me emociono toda vez que ouço ou vejo qualquer coisa com Elis. Muitas vezes até às lágrimas. Ainda não consigo entender muito bem esta comoção que me aflige nesses momentos.
Quando Elis morreu, em 1981, eu tinha 16 anos, estudava no SENAI durante o dia e começava o 2º grau à noite. Não fosse pelo fato de eu ser extremamente fechado, já àquela época, eu passaria facilmente como um adolescente comum. Mas me lembro bem daquele dia, quando soube da notícia pela televisão. Chorei muito, como nunca antes havia chorado pela morte de qualquer pessoa. Era quase desespero. Não me conformava e não podia aceitar que ela, justo ela, tivesse morrido. Nem quando meu padrinho morreu, quando eu tinha 14 anos, chorei e me desesperei tanto. Se me perguntarem o porquê eu sinceramente não saberei responder. Posso fazer muitas proposições, algumas só formadas hoje, adulto.
Naquela época eu já ouvia muita música popular brasileira. Eu ouvia muito Bethânia, Caetano, Gal, Chico e Milton. Já não era comum gostar deles na minha idade. Era a década de 80, Abertura, e bandas de rock pipocavam no verão. Assim como meu gosto por livros e quadrinhos, que lia avidamente, meu gosto musical era realmente estranho. E tinha Elis nesse meio. Não sei porque, mas eu adorava quando exibiam na TV os especiais com ela. Eu acho que já sentia que o que ela emanava não era só a voz: era a alma, dela e da música que interpretava, que vinham junto com a voz, me invadindo todo, me emocionando inteiro, uma força arrebatadora e delicada ao mesmo tempo. Acho que é isso que as pessoas traduzem como "intérprete excepcional".
Cada música com Elis era uma parte dela mesma, representando de forma intensa o que ela era. Samba, samba-canção, música de "fossa", bossa nova. Tudo era ela. Eu queria cantar como ela, fazer com a música o que ela fazia: extrair a emoção mais pura de dentro de seus vários sentidos.
Levei anos para ter um disco de Elis. Tenho dois e algumas gravações esparsas. Tudo de Elis para mim é sempre muito novo, mesmo o que já é velho conhecido.
Até hoje choro quando vejo Elis. Brigo com ela, xingo, digo, de maneira irracional e infantil, que ela não tinha o direito de ter-nos deixado quando havia tanto que ela ainda poderia fazer. Ouço músicas, hoje, que são a cara dela, e penso: isso ia ficar lindo na voz dela. Aí vem essa raiva e eu digo "não! niguém deveria ter o direito de partir com tanto talento e emoção para mostrar, tão cedo!". É injusto para conosco, que aprendemos a amar o amor que ela tinha, essa capacidade de entrega, em tudo. Não a conhecia pessoalmente, não assisti nenhum de seus shows, não tiva a possibilidade de vê-la senão na TV. Mas que saudade!
Aos religiosos, aos espiritualistas, aos amigos e parentes dela: não se preocupem. Não quero atrapalhar o descanso de ninguém. Sou egoísta, sim, mas com ela. Porque me lembro de Ella Fitzgerald, velhinha, cantando no aniversário de 70 anos de Frank Sinatra e superando-o em talento, limpeza de voz e swing, e penso no que Elis estaria fazendo hoje e no que ela faria aos 70!
Muitas coisas maravilhosas, com certeza. Tão boas quanto este momento com o reverenciável Adoniran, que comento depois. Hoje é para Elis, que mais uma vez me emociona às lágrimas, alegre por saber que ela existiu e permanece. "Como um estrela".
27/02/1995
12h12
Em tempo: hoje tenho quase todos os discos da Elis que foram lançados em CD e também os DVDs; e ela ainda me emociona. Demais.
Reflexões sobre São Paulo I
Todos os dias, ao sair do trabalho pelo estacionamento, olho para o céu. Na minha São Paulo de horizontes verticais espanto o cinza e o cansaço do cimento olhando o arranjo fugidio de formas e luzes que se desenham na noite do horário de verão. Lembro dos quadros de Turner e suas transparências luminosas e etéreas e por segundos o peso do dia longo e exaustivo se desfaz. Tempo suficiente para uma rápida e profunda tomada de ar para poder prosseguir.
Mas basta chegar à rua para que o mundo real bata em minha cara: na minha São Paulo da pujança econômica há uma pujante miséria humana. Fantasmas de seres humanos amontoam-se e distendem-se pela praça com seus olhos cavados de delírio e desprezo. Nossa indiferença lhes é indiferente. Será? Não posso conceber que seja. Diariamente nos recusamos a reconhecer aquele indivíduo que perdeu sua individualidade a ponto de não poder nem contar como número em dados estatísticos. Ok, perderam-se nas drogas, no crime. Mas por quê? Complicada pergunta, mais ainda a resposta. São pessoas que se entregaram ao medo, ao desespero, e se encontram abandonadas de si mesmas.
(continua)
Mas basta chegar à rua para que o mundo real bata em minha cara: na minha São Paulo da pujança econômica há uma pujante miséria humana. Fantasmas de seres humanos amontoam-se e distendem-se pela praça com seus olhos cavados de delírio e desprezo. Nossa indiferença lhes é indiferente. Será? Não posso conceber que seja. Diariamente nos recusamos a reconhecer aquele indivíduo que perdeu sua individualidade a ponto de não poder nem contar como número em dados estatísticos. Ok, perderam-se nas drogas, no crime. Mas por quê? Complicada pergunta, mais ainda a resposta. São pessoas que se entregaram ao medo, ao desespero, e se encontram abandonadas de si mesmas.
(continua)
19 de jan. de 2010
Impressões...
Alguns de meus amigos, apesar de saberem da existência do meu blog Andarilho do Vento, não costumam visitá-lo. Por isso acabo imprimindo e mostrando meus poemas para eles. Gosto de ver suas reações, pois elas são sempre motivadas por sentimentos alheios aos meus próprios quando escrevi e isso torna o processo altamente instigante.
Na madrugada de ontem para hoje escrevi um poema chamado "Eutanásia" que, naturalmente, lida com a morte, a finitude. Veio-me quando eu já estava deitado, pronto para dormir. Como tenho alguns livros na estante ao lado cama, peguei um, a poética de Vinícius de Moraes, e comecei a folhear, ler coisas aqui e ali, e li um poema que ele escreveu para Pedro Nava (creio que na ocasião da morte deste). Um poema de exaltação ao amigo e também de lamento e saudade. Aí senti vontade de escrever algo sobre a morte. Por estranho que pareça, é o segundo poema que escrevo em torno desse tema em três dias. Talvez a Indesejada ande rondando meus pensamentos mais do que deveria (brrrr!).
Pois bem, mostrei o texto a algumas pessoas e algumas o acharam 'bonito', outras ficaram quietas, mas um amigo deprimiu-se, porque o poema parece definitivo demais. Para mim escrever tem efeito de catarse, já que normalmente só escrevo a partir de sentimentos ditos desagradáveis (angústia, melancolia, desesperança). Porque escrever torna-se possibilidade de reflexão, de enfrentamento de si mesmo, de reconhecimento de limitações, de compreensão de nossa própria condição na terra.
Fico imaginando o que passa pela cabeça das pessoas quando elas lêem. Principalmente quando lêem poesia. Na verdade, o que passa por seus corações, como que aquele texto único se abre em mil possibilidades de interpretação, de reconhecimento por parte de quem o lê. Gosto do espanto que essas leituras me causam, porque sempre me ensinam mais a respeito de mim mesmo. E contribuem, sempre, para o próximo poema.
Na madrugada de ontem para hoje escrevi um poema chamado "Eutanásia" que, naturalmente, lida com a morte, a finitude. Veio-me quando eu já estava deitado, pronto para dormir. Como tenho alguns livros na estante ao lado cama, peguei um, a poética de Vinícius de Moraes, e comecei a folhear, ler coisas aqui e ali, e li um poema que ele escreveu para Pedro Nava (creio que na ocasião da morte deste). Um poema de exaltação ao amigo e também de lamento e saudade. Aí senti vontade de escrever algo sobre a morte. Por estranho que pareça, é o segundo poema que escrevo em torno desse tema em três dias. Talvez a Indesejada ande rondando meus pensamentos mais do que deveria (brrrr!).
Pois bem, mostrei o texto a algumas pessoas e algumas o acharam 'bonito', outras ficaram quietas, mas um amigo deprimiu-se, porque o poema parece definitivo demais. Para mim escrever tem efeito de catarse, já que normalmente só escrevo a partir de sentimentos ditos desagradáveis (angústia, melancolia, desesperança). Porque escrever torna-se possibilidade de reflexão, de enfrentamento de si mesmo, de reconhecimento de limitações, de compreensão de nossa própria condição na terra.
Fico imaginando o que passa pela cabeça das pessoas quando elas lêem. Principalmente quando lêem poesia. Na verdade, o que passa por seus corações, como que aquele texto único se abre em mil possibilidades de interpretação, de reconhecimento por parte de quem o lê. Gosto do espanto que essas leituras me causam, porque sempre me ensinam mais a respeito de mim mesmo. E contribuem, sempre, para o próximo poema.
14 de nov. de 2009
Zéfiro
É só abrir as janelas que o vento logo vem sequestrar as cortinas, aquele safado!!! E Elas todas dadas se deixam levar, umas perdidas é o que elas são! Depois de o vento ter soprado bastante, elas ficam ali, murchas, tristes, presas ao varão. O vento também faz isto com os cabelos, e eles ficam soltos, absortos num sonho de voar, deixando no rosto confuso um ar de despedida. O vento é um ser cheio de mistérios.
Por: Sandra Regina Rosado
Oferecido ao Alfarrábios em 14/11/2009, data de sua criação. De quebra, descobri que as manhãs de sábado são as mais inspiradoras para minha amiga. Porque hoje ainda é sábado.
Por: Sandra Regina Rosado
Oferecido ao Alfarrábios em 14/11/2009, data de sua criação. De quebra, descobri que as manhãs de sábado são as mais inspiradoras para minha amiga. Porque hoje ainda é sábado.
30 de out. de 2009
Resposta a um e-mail de um amigo sobre Harry Potter - o filme (comentário anacrônico)
Meu amigo em um e-mail:
"E me conte, voce viu o Harry Potter em 3D? (...) O pessoal reclamou foi da falta de magicas operadas pelo proprio Potter: Dumbledore deixou-o ali escondidinho e meus amigos pensaram que, no fim, ele fosse aparecer, fazer, acontecer, e ainda por cima salvar o velhinho. Fora que o Principe do nao-sei-o-que tinha se revelado uma pessoa melhor em filmes anteriores, e que essa virada/revelacao de agora nao foi muito plausivel... Seilá"
Minha resposta:
"E me conte, voce viu o Harry Potter em 3D? (...) O pessoal reclamou foi da falta de magicas operadas pelo proprio Potter: Dumbledore deixou-o ali escondidinho e meus amigos pensaram que, no fim, ele fosse aparecer, fazer, acontecer, e ainda por cima salvar o velhinho. Fora que o Principe do nao-sei-o-que tinha se revelado uma pessoa melhor em filmes anteriores, e que essa virada/revelacao de agora nao foi muito plausivel... Seilá"
Minha resposta:
Pois é: não assisti a Harry 3D. Confesso que nem sabia que tinha essa possibilidade. Quanto aos comentários, digamos que... danem-se os pottermaníacos e os que assim se acham. O filme é bom como filme. Até onde me lembro (minhas leituras dos livros não demoravam mais do que quatro dias e eu as fazia assim que os livros eram lançados – em inglês, claro – então você imagina o quanto de detalhes eu conseguiria lembrar agora, passado tanto tempo), não vi nada que não me parecesse estar no livro de alguma forma. Os conflitos são morais, mesmo – Harry questiona-se o tempo inteiro sobre a validade da consideração/carinho que Dumbledore tem por ele, há uma dubiedade constante em relação às “verdades” que ele só supõe saber. Essa é a verdadeira batalha de Harry. E, no filme, acho que foi defendida com louvor. Eu ouvi críticas à “acessorização” de Ron e Hermione na película, mas creio que isso é um pouco o que eles fazem, mesmo. E eles também têm seu próprio drama moral particular, que está ligada à relação de amor entre os dois que tarda a se resolver e que os consome – como em geral os amores adolescentes fazem: consomem e demoram (quando chegam ) a se consumar. Passei do ponto da simploriedade de “o-livro-é-melhor-que-filme”. O filme é o filme, o livro é o livro. A cada um o que cada um tem de valor. E o filme tem bastante. Fico com isso e com issou dou-me por dito (rs).
Estranha experiência
Há alguns anos relatei a um amigo uma experiência por que passei recorrentemente: à vezes estou em casa e um silêncio toma conta do ambiente, da minha mente, e subitamente me vejo percebendo o espaço à minha volta. Não é só a percepção visual; é como se eu roçasse o limite das coisas ao meu redor. A consciência da parede, dos móveis, das texturas, do espaço ocupado pelos objetos, tudo isso fica muito claro. E aí, em seguida (ou não), acontece um outro "estágio" da percepção, que é a do tempo. É como se eu pudesse 'enxergar' o contínuo espaço-temporal (parece papo de ficção científica barata, né?) e entendesse a dimensão do universo... Não, eu não enlouqueci (pelo menos não da maneira convencional). Não há medo, não há espanto, não qualquer inquietação nessa percepção. Na verdade, há uma calma, como se fosse simplesmente natural estar ali, naquele 'vazio repleto'. Dá para ver a transitoriedade da vida, o quanto as coisas que consideramos absolutamente essenciais são passageiras e finitas. Que o que importa é imaterial e perene... Será que isso faz algum sentido? Se não fizer, tudo bem. Não é importante.
Meu amigo me disse que tive uma experiência que faria inveja aos existencialistas... e eu nem entendo essa coisa de Existencialismo...
Meu amigo me disse que tive uma experiência que faria inveja aos existencialistas... e eu nem entendo essa coisa de Existencialismo...
23 de out. de 2009
Da falta de educação de quem fala ao celular
O aparelho celular tornou-se, infelizmente, a grande "praga social" do início do século 21. Não há onde se esteja livre dele e de seu toque insidioso nos momentos menos desejados. Até mesmo no cinema o aparelhinho cisma de surgir nas horas impróprias.
Fico espantado com a maneira como as pessoas se deseducaram a partir do momento em que contrairam a praga. Já detectei diversos tipos:
1) Os que falam no celular como se o aparelho não existisse e o interlocutor estivesse do outro lado do estádio de futebol: aos berros! Ou então alto o suficiente para que todos no ambiente possam saber do que se trata a sua conversa (que, definitivamente, não interessa a ninguém). Aqui no trabalho temos uma pessoa que ocasionalmente nos visita e nos brinda com sua voz irritante ao atender o celular e fazer questão de que saibamos que ela o está utilizando. Uma tática que já usamos foi falar bem alto ao lado dela, para ver se ela se toca e baixa a voz, mas não adianta. A intrusora quando muito sai para o corredor (para nosso alívio de qualquer forma). O mesmo acontece em transporte público e muitas vezes ficamos sabendo das mentiras que as pessoas contam para o chefe, para a esposa, para o marido, para a namorada etc. É um desfile de segredos que as pessoas não conseguem ter a discrição de ocultar.
2) Os que deixam ligados (apesar dos avisos) e, o que é pior, atendem quando tocam, seus celulares dentro do cinema. E, em lugar de despachar o interlocutor o mais rápido possível, fazem questão de dar a ficha técnica do filme que estão assistindo e em que cinema! Quando já se passou pelo menos meia hora de filme! E, apesar de ouvirem o celular, não ouvem os muitos pedidos de silêncio de quem gostaria de assistir ao filme em silêncio, como todo espectador civilizado de cinema deve fazer (mas espectador de cinema civilizado é espécie em extinção).
3) Os que usam celular enquanto dirigem. Esses são uma praga. O duro é que nem as multas resolvem. Já cansei de ver motoristas mal-educados que não sinalizam que vão fazer uma curva, simplesmente porque já estão ocupando demais os dois neurônios funcionais que têm atendendo o maldito e tentando manter a direção. Atrapalham tanto quem vem atrás quanto os pedestres que querem atravessar e contam com a sinalização do motorista para saber se pode fazê-lo com segurança. Esses mereciam ter suas habilitações cassadas imediatamente.
Claro que existem outros, mas listei aqui aqueles que encontro mais frequentemente. Acho difícil ser tolerante com gente mal-educada. E portadores de celular parecem ter um talento especial para a falta de educação...
É isso... mais um palpite infeliz de um palpiteiro felicíssimo.
Fico espantado com a maneira como as pessoas se deseducaram a partir do momento em que contrairam a praga. Já detectei diversos tipos:
1) Os que falam no celular como se o aparelho não existisse e o interlocutor estivesse do outro lado do estádio de futebol: aos berros! Ou então alto o suficiente para que todos no ambiente possam saber do que se trata a sua conversa (que, definitivamente, não interessa a ninguém). Aqui no trabalho temos uma pessoa que ocasionalmente nos visita e nos brinda com sua voz irritante ao atender o celular e fazer questão de que saibamos que ela o está utilizando. Uma tática que já usamos foi falar bem alto ao lado dela, para ver se ela se toca e baixa a voz, mas não adianta. A intrusora quando muito sai para o corredor (para nosso alívio de qualquer forma). O mesmo acontece em transporte público e muitas vezes ficamos sabendo das mentiras que as pessoas contam para o chefe, para a esposa, para o marido, para a namorada etc. É um desfile de segredos que as pessoas não conseguem ter a discrição de ocultar.
2) Os que deixam ligados (apesar dos avisos) e, o que é pior, atendem quando tocam, seus celulares dentro do cinema. E, em lugar de despachar o interlocutor o mais rápido possível, fazem questão de dar a ficha técnica do filme que estão assistindo e em que cinema! Quando já se passou pelo menos meia hora de filme! E, apesar de ouvirem o celular, não ouvem os muitos pedidos de silêncio de quem gostaria de assistir ao filme em silêncio, como todo espectador civilizado de cinema deve fazer (mas espectador de cinema civilizado é espécie em extinção).
3) Os que usam celular enquanto dirigem. Esses são uma praga. O duro é que nem as multas resolvem. Já cansei de ver motoristas mal-educados que não sinalizam que vão fazer uma curva, simplesmente porque já estão ocupando demais os dois neurônios funcionais que têm atendendo o maldito e tentando manter a direção. Atrapalham tanto quem vem atrás quanto os pedestres que querem atravessar e contam com a sinalização do motorista para saber se pode fazê-lo com segurança. Esses mereciam ter suas habilitações cassadas imediatamente.
Claro que existem outros, mas listei aqui aqueles que encontro mais frequentemente. Acho difícil ser tolerante com gente mal-educada. E portadores de celular parecem ter um talento especial para a falta de educação...
É isso... mais um palpite infeliz de um palpiteiro felicíssimo.
21 de out. de 2009
Palpiteiro infeliz
Foi um dia muito corrido, cheio de problemas e insatisfações, como de costume. Mas a gente aguenta, porque as contas precisam ser pagas. No intervalo do almoço, enquanto ainda sobre um tempo (comer rápido tem muitas desvantagens, mas a vantagem de poder usufruir de uns minutinhos para ler coisas na internet não relacionadas ao trabalho às vezes compensa), dou uma lida rápida nas chamadas de alguns blogs que acompanho e em matérias da chamada "grande mídia" escrita - no caso um jornal de grande circulação em São Paulo. Entro em um link que fala sobre um seriado da Globo chamado "Norma", estrelado por Denise Fraga.
A articulista defende a inteligência do programa diante da notícia de que o mesmo foi retirado da grade (ia ao ar após o fatídico Fantástico) por perder feio no Ibope para programas estúpidos de outras emissoras. Um nota curta e muito bem escrita. O que me chamou atenção foram os comentários em relação à nota. Tinha "de um tudo", desde ofensas à capacidade da atriz, à estrutura da Rede Globo etc. até a desqualificação do público que deixa de assistir ao seriado para assistir à programação empobrecedora de espíritos das outras emissoras.
Algumas opiniões (ou melhor seria dizer ataques) que diminuíam ou desconsideravam a capacidade intelectual das classes C, D e E, supostamente, então, feitos por alguém da classe B ou A - que deveria ter critério, educação e capacidade intelectual para redigir um bom texto - eram tão mal escritos que fiquei me perguntando se essas pessoas têm algum senso de auto-crítica ou se realmente sua soberba as torna tão cegas de si mesmas a ponto de ignorar o que dizem. Porque só um ignorante, sentido estrito, consegue dizer aquelas barbáries sem se tocar das bobagens que estão perpetrando. Além do teor preconceituoso e desinformado das opiniões, há verdadeiros achaques à língua.
Aí, mais uma vez, penso que preciso dar o meu palpite infeliz. Será que não seria hora de entendermos - todos nós, sociedade brasileira - que todos os problemas sociais que sofremos, em todos os extremos cardeais de nosso país, decorrem exatamente da falta de uma educação de qualidade? Uma educação que de fato ensine as crianças não só a ler mas a refletir sobre a sua leitura, a pensar criticamente desde o início, valorizando sua compreensão do mundo e seu caráter mutável? Que as ajude a compreender seu papel social, político, histórico no mundo? Porque educação de qualidade é algo que fará bem a todas as classes, tanto àquelas que, tendo podido pagar por uma boa educação, continuam se expressando mal em comentários feitos nos jornais eletrônicos (e em várias outras instâncias da vida pública e privada), quanto àquelas em que seus membros, desde cedo alijados de seus direitos por uma política branca e mesquinha, não conseguem chegar a aprender a escrever por falta de opções (de escolas, educadores, políticas corretas de ensino etc).
Até quando colocaremos a culpa nos outros e, refestelados em nossa "zona de conforto" (como diria um cínico professor de uma grande universidade de São Paulo), continuaremos ignorando todo o contexto social enquanto isso nos favorecer a nós particularmente? Quando iremos aprender a, de fato, pensar coletivamente - o que não quer dizer como um rebanho? Pensar coletivamente é pensar no que pode beneficiar não apenas uma minoria (seja ela qual for), mas a maioria. É pensar em divergir, mas respeitando a opinião e as crenças do indivíduo. É pensar que aquilo que for feito agora terá repercussão no futuro e que não importa se os resultados não serão vistos por nós, que realizamos nossos atos agora, mas pelas gerações que estão no porvir, que estão na possibilidade de vir a existir. Que mundo queremos para nós? Melhor, certamente, com mais oportunidades, mais igualdades, mais respeito e dignidade. Quanto fazemos para que esses sejam bens inerentes à todos? Muito pouco, ou mesmo nada. Enxergamos nossos benefícios imediatos, não importa se eles representam malefícios futuros.
O homem, infelizmente, não aprende com o próprio homem. Ao contrário, vai esquecendo sistematicamente as lições. Como pensar em passar algo adiante?
Essa postagem fica incompleta. Volto ao tema depois.
A articulista defende a inteligência do programa diante da notícia de que o mesmo foi retirado da grade (ia ao ar após o fatídico Fantástico) por perder feio no Ibope para programas estúpidos de outras emissoras. Um nota curta e muito bem escrita. O que me chamou atenção foram os comentários em relação à nota. Tinha "de um tudo", desde ofensas à capacidade da atriz, à estrutura da Rede Globo etc. até a desqualificação do público que deixa de assistir ao seriado para assistir à programação empobrecedora de espíritos das outras emissoras.
Algumas opiniões (ou melhor seria dizer ataques) que diminuíam ou desconsideravam a capacidade intelectual das classes C, D e E, supostamente, então, feitos por alguém da classe B ou A - que deveria ter critério, educação e capacidade intelectual para redigir um bom texto - eram tão mal escritos que fiquei me perguntando se essas pessoas têm algum senso de auto-crítica ou se realmente sua soberba as torna tão cegas de si mesmas a ponto de ignorar o que dizem. Porque só um ignorante, sentido estrito, consegue dizer aquelas barbáries sem se tocar das bobagens que estão perpetrando. Além do teor preconceituoso e desinformado das opiniões, há verdadeiros achaques à língua.
Aí, mais uma vez, penso que preciso dar o meu palpite infeliz. Será que não seria hora de entendermos - todos nós, sociedade brasileira - que todos os problemas sociais que sofremos, em todos os extremos cardeais de nosso país, decorrem exatamente da falta de uma educação de qualidade? Uma educação que de fato ensine as crianças não só a ler mas a refletir sobre a sua leitura, a pensar criticamente desde o início, valorizando sua compreensão do mundo e seu caráter mutável? Que as ajude a compreender seu papel social, político, histórico no mundo? Porque educação de qualidade é algo que fará bem a todas as classes, tanto àquelas que, tendo podido pagar por uma boa educação, continuam se expressando mal em comentários feitos nos jornais eletrônicos (e em várias outras instâncias da vida pública e privada), quanto àquelas em que seus membros, desde cedo alijados de seus direitos por uma política branca e mesquinha, não conseguem chegar a aprender a escrever por falta de opções (de escolas, educadores, políticas corretas de ensino etc).
Até quando colocaremos a culpa nos outros e, refestelados em nossa "zona de conforto" (como diria um cínico professor de uma grande universidade de São Paulo), continuaremos ignorando todo o contexto social enquanto isso nos favorecer a nós particularmente? Quando iremos aprender a, de fato, pensar coletivamente - o que não quer dizer como um rebanho? Pensar coletivamente é pensar no que pode beneficiar não apenas uma minoria (seja ela qual for), mas a maioria. É pensar em divergir, mas respeitando a opinião e as crenças do indivíduo. É pensar que aquilo que for feito agora terá repercussão no futuro e que não importa se os resultados não serão vistos por nós, que realizamos nossos atos agora, mas pelas gerações que estão no porvir, que estão na possibilidade de vir a existir. Que mundo queremos para nós? Melhor, certamente, com mais oportunidades, mais igualdades, mais respeito e dignidade. Quanto fazemos para que esses sejam bens inerentes à todos? Muito pouco, ou mesmo nada. Enxergamos nossos benefícios imediatos, não importa se eles representam malefícios futuros.
O homem, infelizmente, não aprende com o próprio homem. Ao contrário, vai esquecendo sistematicamente as lições. Como pensar em passar algo adiante?
Essa postagem fica incompleta. Volto ao tema depois.
19 de set. de 2009
Apelo
Andarilho do vento
Sinto falta de palavras
Aquelas que mudam escalas
E criam outros tons e semitons
Na música diária sempre ficam
Palavras necessárias
E aquelas que esperamos
Não são ditas, desfalecem antes do suspiro
Aguardamos loucamente por elas
No silêncio nascem os detalhes
Há um turbilhão neles
Sabemos sua existência
As palavras apenas não querem
Sair do dicionário.
Por: Sandra Regina Rosado
Em: 04/08/2009
Sinto falta de palavras
Aquelas que mudam escalas
E criam outros tons e semitons
Na música diária sempre ficam
Palavras necessárias
E aquelas que esperamos
Não são ditas, desfalecem antes do suspiro
Aguardamos loucamente por elas
No silêncio nascem os detalhes
Há um turbilhão neles
Sabemos sua existência
As palavras apenas não querem
Sair do dicionário.
Por: Sandra Regina Rosado
Em: 04/08/2009
Assinar:
Postagens (Atom)
